A maioria das brasileiras visita regularmente o ginecologista, apontando esta especialidade médica como uma das mais importantes para sua saúde (e com altos índices de satisfação). Saiba o que leva as mulheres a realizar consultas e como a evolução médica tem aprimorado constantemente os atendimentos.
Vamos iniciar esta conversa com um dado impactante: 20% das mulheres brasileiras acima dos 16 anos não visitam o ginecologista com regularidade. O número pode parecer alto (e é!), mas por outro lado significa que a grande maioria das mulheres (80%) agenda tais consultas periodicamente. Não é à toa: as mulheres bem conhecem a enorme importância da ginecologia na promoção da saúde e na prevenção de doenças.
Oito de cada dez mulheres citam a área como a mais importante especialidade para a saúde feminina, e a mesma proporção afirma estar satisfeita com o atendimento do ginecologista atual ou do último com quem se consultou.
Os resultados acima fazem parte da pesquisa “Expectativa da mulher brasileira sobre sua vida sexual e reprodutiva: as relações dos ginecologistas e obstetras com suas pacientes”, encomendada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e com resultados lançados em 2019. À época, os dados foram bastante discutidos pela imprensa, e repercutidos também aqui no Blog do HVC.
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Há razão para não ir ao ginecologista?
Com relação aos 20% que não vão ao ginecologista, você consegue imaginar os motivos relatados para isso?
Por incrível que possa parecer, os principais foram:
- Considerar-se saudável (mesmo sem ter passado por qualquer avaliação clínica) (31% das respostas)
- Não achar importante ou necessário esse tipo de consulta (22%).
Como foi apontado por profissionais à época, esses dados indicam uma questão séria de educação de uma parcela não insignificante da população. Afinal, a visita anual é uma garantia de detecção precoce de diversas doenças que afetam as mulheres, algumas potencialmente fatais, porém tratáveis quando identificadas em estágios iniciais.
Além disso, muitas vezes é nas consultas com o ginecologista que questões mais gerais de saúde são descobertas, proporcionando um acompanhamento que resulta em maior qualidade de vida ao longo dos anos.
A Primeira Consulta
Em média, com que idade ocorre a primeira ida ao ginecologista aqui no Brasil? De acordo com a pesquisa, é aos 20 anos. As principais razões apontadas são:
- a necessidade de esclarecer algum problema ginecológico
- identificar uma gravidez ou tirar dúvidas sobre ela
- saber como prevenir uma gravidez
Ou seja: a clínica ginecológica é um local de acolhimento desde os primeiros anos da vida adulta, de tirar dúvidas, de receber orientação especializada. Tal confiança das pacientes decorre de décadas de avanços médicos, técnicos e científicos, que permitiram um cuidado cada vez melhor e mais abrangente com a saúde da mulher.
Em vista disso, vamos compreender, a seguir, um pouquinho mais sobre esta rápida evolução.
Ginecologia: tecnologia e conhecimento para a Saúde da Mulher
É até difícil imaginar o quanto a Medicina evoluiu em tão pouco tempo – e como isso se refletiu em melhoras significativas para a saúde das mulheres. Considera-se que o ramo da ginecologia só ‘começou’ de verdade no final do século XIX, e de lá para cá os avanços ocorreram de forma rápida e constante:
- A primeira cirurgia de remoção de cistos ovarianos foi relatada na literatura médica no início do século XIX.
- Já a primeira vez em que uma histerectomia abdominal foi realizada com sucesso foi em 1853. Esta é uma cirurgia de remoção do útero através de uma incisão no abdômen, indicada em casos de câncer, endometriose ou infecções graves, por exemplo.
- A primeira laparoscopia (técnica cirúrgica minimamente invasiva) de sucesso foi realizada nos primeiros anos do século XX.
- Em 1937 foi iniciado o uso de sulfonamidas para tratar a febre puerperal, uma das principais causas de mortalidade materna pós-parto à época. Após a introdução dessa classe de antibióticos, a redução nos óbitos foi muito grande, resultado em milhões de vidas salvas em todo o mundo.
- Em 1941, os primeiros exames de triagem para câncer cervical (Papanicolau) foram introduzidos por ginecologistas.
Daí em diante, a cada nova década, mais e mais descobertas, tecnologias e medicamentos foram lançados, e cada vez mais o bem-estar e a saúde feminina ganharam relevância para a Medicina. Os avanços foram rápidos, em constante aceleração. Vacinas foram criadas, novos exames gerados, assim como políticas públicas de prevenção de doenças e de exames de triagem.
Para se ter uma ideia desse tipo de evolução constante, vale focarmos as atenções em uma tecnologia em especial, de altíssimo valor para a ginecologia: o ultrassom.
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A Revolução do Ultrassom na ginecologia
Uma das maiores inovações em saúde no último século e que mais trouxe benefícios para a saúde da mulher foi o ultrassom.
Criada originalmente nos anos 1940, essa tecnologia permite visualizar, de forma completamente não-invasiva e sem desconforto à paciente, o útero, os ovários, as trompas uterinas e demais estruturas internas (sem contar, é claro, os fetos, nos casos de gravidez).
Como funciona o ultrassom?
O nome da tecnologia vem do fato de que utiliza literalmente o som como meio para a criação das imagens. O equipamento emite ondas sonoras em altas frequências (por isso o “ultra” do nome), inaudíveis pelos nossos ouvidos, que são transmitidas ao corpo e ‘rebatem’ em órgãos e tecidos. Esse ‘eco’ é captado e interpretado por programas de computador, que os convertem em imagens. Diferentes tecidos refletem o som de maneiras distintas – por exemplo, os líquidos aparecem como áreas pretas nas imagens (chamadas de anecóicas), já estruturas mais sólidas aparecem em branco (hiperecóicas), e o que está entre um e outro, como alguns órgãos, surge em tons de cinza (hipoecóico).
A descrição acima é mais ou menos similar ao funcionamento dos raios-X, que também são ‘refletidos’ de maneiras distintas pelas estruturas do corpo – com o benefício de que o ultrassom não envolve nada de radioatividade, podendo ser aplicado frequentemente, sem qualquer malefício à saúde.
O ultrassom foi utilizado inicialmente em obstetrícia para confirmar a gravidez e gerar imagens do feto em desenvolvimento, permitindo, assim, determinar a idade gestacional, identificar anomalias e acompanhar seu crescimento (já imaginou como era antigamente, quando não havia maneiras de “ver” o feto para avaliar sua saúde?). Hoje, é uma ferramenta poderosa também na ginecologia, ajudando a diagnosticar uma série de problemas, como alterações na menstruação, dores pélvicas, monitoramento de tumores e avaliação de fertilidade.
No final da década de 1960, uma versão mais avançada do ultrassom, agora utilizando uma tecnologia conhecida como Doppler, permitiu aos médicos visualizar vasos sanguíneos, abrindo caminho para estudos detalhados sobre a circulação do sangue nas pacientes.
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Nos anos 1980, o ultrassom 3D foi inventado, com lançamento comercial no início dos anos 1990. Ele funciona combinando múltiplas imagens em duas dimensões, processadas por programas especiais, que geram uma visão mais realista e detalhada das estruturas internas do corpo. Com ele, é possível identificar, com grande precisão, anomalias congênitas no trato reprodutivo feminino, identificar fibromas uterinos, pólipos e adesões, além de ajudar na avaliação do posicionamento de DIUs.
Ainda nos anos 1990, o ultrassom “4D” foi lançado, adicionando um parâmetro de “tempo” às imagens – por exemplo, em exames de gravidez, é possível acompanhar a movimentação do feto ao longo de um período de tempo, com ele se mexendo dentro da barriga da mãe, chupando o dedinho ou, às vezes, até mesmo bocejando! Essa tecnologia começou a chegar aos consultórios nos últimos 20 anos, e nem sempre é utilizada, já que o ultrassom tradicional, 2D, às vezes fornece mais informações relevantes ao ginecologista do que as versões 3D ou 4D.
IA e o “ultrassom 5D”
Nos últimos anos, as tecnologias de ultrassom 3D e 4D foram aprimoradas e ficaram mais baratas, o que permitiu aumentar o número de mulheres que podem se beneficiar delas. Além disso, a IA está sendo testada como uma aliada da saúde feminina, especialmente na automatização da análise de exames de imagens, a fim de identificar problemas de saúde como tumores e pólipos. Na ginecologia, a IA está sendo aplicada à tecnologia do ultrassom – criando o que já é chamado de “ultrassom 5D” –, permitindo medições de estruturas internas com agilidade e precisão, diagnósticos mais confiáveis e interpretações avançadas dos resultados. Áreas como a biometria fetal e análise da placenta têm sido bastante beneficiadas por estas tecnologias.
A ginecologia é um pilar essencial da saúde feminina
Ao utilizar técnicas não-invasivas e que resultam em dados avançados de saúde – como o ultrassom –, fornecer exames abrangentes e capazes de analisar a saúde geral da paciente, ao abrir um espaço seguro para conversar, tirar dúvidas e discutir questões de saúde, o ginecologista torna-se um pilar essencial da saúde feminina.
Felizmente, a maior parte das brasileiras sabe disso, e mantém uma rotina saudável de visitas. Falta apenas convencer todas as mulheres (inclusive aqueles 20%) sobre a enorme importância dessas consultas para uma vida mais longeva e livre de doenças. Com tantas novidades e avanços médicos, aliados ao compartilhamento de informação de qualidade sobre saúde da mulher, certamente caminhamos confiantes nesta direção.
Para saber mais
- Loudon I. General practitioners and obstetrics: a brief history. J R Soc Med. 2008 Nov;101(11):531-5. doi: 10.1258/jrsm.2008.080264. PMID: 19029353; PMCID: PMC2586862.
- Dados sobre frequência da visita das mulheres norte-americanas a ginecologistas em 2018.




