Hanseníase: no dia mundial de combate e prevenção, descubra o quanto você sabe sobre a doença - Blog - Hospital Vera Cruz

29/01/2023

Hanseníase: no dia mundial de combate e prevenção, descubra o quanto você sabe sobre a doença

Apesar da hanseníase ser curável, o diagnóstico tardio pode gerar sequelas permanentes. Saiba como identificá-la.

 

O mês de janeiro ganhou tonalidades de roxo – uma cor criativa, que quebra padrões e estimula o pensamento a fugir de estereótipos. O motivo para o colorido é o Dia Mundial de Combate e Prevenção da Hanseníase, celebrado sempre no último domingo do mês – a data, aqui no Brasil, é acompanhada pela campanha ‘Janeiro Roxo’, em que peças de divulgação sobre a hanseníase adotam essa cor.

Hospital Vera Cruz - Hanseniase - Capa

Além dessa data mundial, 31 de janeiro é o “Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase”, data instituída pela Lei nº 12.135 de 2009.

 

Quando falamos em ‘quebra de padrões’ e de estereótipos, talvez a hanseníase seja um dos melhores exemplos do porquê isso é importante. Afinal, ela é bem conhecida há milhares de anos, porém se mantém, em pleno 2023, ainda cercada por muitas dúvidas, mitos e desinformação. Está na hora de mudar as tonalidades desta história!

 

A campanha ‘Janeiro Roxo’ é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Dermatologia e tem como objetivo alertar para os principais sinais e sintomas da doença (diminuição de sensibilidade na pele, sensação de dormência, picadas ou espetadas no local, aparecimento de manchas mais claras, vermelhas ou marrons), além da importância do diagnóstico precoce e tratamento. Assista ao vídeo abaixo sobre a campanha!

 

A falta de conhecimento sobre a hanseníase gera resultados alarmantes. O Brasil é um dos “líderes” no ranking global de países com mais notificações de novos casos da doença (veja os números mais abaixo), o que aponta falhas de cuidados básicos com a saúde e com a informação do público. Se a pessoa que sofre com a doença não procurar logo tratamento médico, poderá ficar com sequelas permanentes.

Nos dias atuais, a hanseníase é tratável e curável. Mas ‘tempo’ é algo essencial para o tratamento dar certo. O quanto antes os sinais da doença forem identificados e o tratamento iniciado, melhor. Velocidade é sinônimo de cura.

Neste material, vamos trazer tudo o que você precisa saber sobre a hanseníase, uma doença que acompanha a humanidade desde, ao menos, 600 a.C. Mas antes, que tal testar seus conhecimentos em um rápido jogo de perguntas e respostas?

 

Perguntas & Respostas!

 

Jovens adultos são mais suscetíveis à hanseníase?

Qualquer pessoa pode ser acometida pela doença, independentemente de sexo, etnia ou condição social.

 

A hanseníase é uma doença causada por uma bactéria, um fungo ou um vírus?

A bactéria que causa a hanseníase se chama Mycobacterium leprae.

 

É verdade que a hanseníase ainda não tem uma cura definitiva?

Falso. Quanto mais cedo for identificada, melhor e mais completa é a cura da hanseníase. O que pode acontecer é o diagnóstico surgir muito tardiamente, e nesses casos algumas das sequelas da doença – como deformidades e perda de movimentos – podem ser irreversíveis. Ainda assim, a pessoa não mais transmitirá a doença para outros.

 

Posso pegar hanseníase pelo contato com animais infectados (como cachorros)?

Não há transmissão de hanseníase de animais para humanos. Cachorros nem mesmo adoecem por esta bactéria.

 

Se uma pessoa tiver sinais de hanseníase na mão (por exemplo, manchas ou deformidades), um simples aperto de mão é contraindicado, já que pode transmitir a doença.

Falso. A hanseníase é transmitida pelo contato prolongado com uma pessoa infectada, especialmente com suas secreções nasofaríngeas. Assim, um aperto de mão não transmite a doença. Ainda: se a pessoa estiver em tratamento ou já foi tratada, ela não mais transmite a bactéria.

 

Afinal, o que é a hanseníase?

Hanseníase é uma doença bacteriana que afeta pele e nervos.

Antigamente, era conhecida como ‘lepra’. Todavia, o termo é fortemente desaconselhado hoje em dia (o Ministério da Saúde, inclusive, proíbe seu uso), já que remete a histórias antigas repletas de estigmas e preconceitos, que não representam a realidade atual.

A hanseníase é causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Esta é uma bactéria comum, e a maioria das pessoas entrará em contato com ela em algum momento da vida. Se o sistema imune da pessoa estiver debilitado, ou se ela ficar em contato prolongado com alguém doente por essa bactéria, o microrganismo pode ganhar a batalha contra os sistemas de defesa do corpo e resultar na doença.

A Mycobacterium leprae foi identificada como sendo a causadora da doença em 1873, pelo médico norueguês Gerhard Armauer Hansen – pelo seu sobrenome, percebe-se por que ela passou a ser chamada, desde então, de hanseníase!

 

Hospital Vera Cruz - Hanseniase - Tratamento e Cura

Ainda assim, há um período de ‘incubação’ longo, de três a sete anos (ou mais), desde o primeiro contato com a bactéria até que os sinais e sintomas da hanseníase de fato apareçam no corpo.

A bactéria possui uma afinidade maior por pele e nervos, que é onde se concentram os danos causados pela infecção. Pessoas que apresentam lesões ou doenças prévias nessas regiões podem ser mais suscetíveis à hanseníase, portanto. E é justamente na pele e nos nervos que os danos são percebidos.

 

Sinais e sintomas da hanseníase

Como vimos acima, a bactéria causadora da hanseníase ataca pele e nervos. Os sintomas variam bastante, de acordo com a imunidade do doente e o tempo de ação da doença. Os principais são:

 

Pele

  • Presença de manchas na pele:
    • Em termos de cor, as manchas podem ser de coloração rosada, esbranquiçada, castanha ou acobreada;
    • Aspecto: com o tempo, essas manchas podem ganhar um aspecto diferente, mais ‘alto’ que a pele ao redor, descamado e com perda de pelos;
    • Sensibilidade: há perda de sensibilidade nessas regiões ‘manchadas’ – isto é, não se sente o toque sobre elas, nem calor ou outras sensações.

 

Sensibilidade

  • A perda de sensibilidade pode, também, ocorrer em outras regiões do corpo, mesmo que não apresentem as manchas;
  • Sensações de ‘choque’, dormência ou ‘fisgadas’ nas mãos e nos pés, indicativas de potenciais danos nos nervos periféricos.

 

‘Caroços’

  • Pode surgir, nas mãos, nos pés e nas articulações, inchaço e dor, além de um ‘espessamento’ dos nervos periféricos, percebidos como ‘caroços’ internos quando se passa a mão na região dolorida.

 

Outros sintomas menos comuns

  • Fraqueza muscular, febre, olhos e pele ressecados, feridas e sangramentos no nariz e problemas de visão são sintomas menos comuns, mas que também podem estar presentes.

 

Estágio avançados

  • Se a doença não for tratada e estiver em estágio avançado, poderá resultar em perda de movimento e deformidades incapacitantes (por exemplo, ‘caroços’ nas mãos e nos pés e deformações nos dedos), especialmente notáveis nos membros (mãos e pés).

Os sinais cutâneos (de pele) são extremamente comuns, sendo uma das principais características da hanseníase. Mais raramente, porém, os sintomas neurais (como perda de sensibilidade) podem surgir primeiro.

É importante notar, dentre o descrito acima, que há duas formas principais de perceber a doença: manchas na pele e perda de sensibilidade. As manchas são mais óbvias. A perda de sensibilidade, por sua vez, pode ser progressiva, mais sutil, exigindo atenção extra para ser identificada.

Além disso, se o doente tiver perda grave de sensibilidade, poderá se machucar com maior facilidade (com queimaduras e cortes, por exemplo), e isso abre caminho para outros tipos de infecção e de problemas – uma queimadura pode gerar infecção secundária na pele, essa infecção se espalhar pelos ossos (osteomielite) e gerar danos ainda mais graves à saúde.

 

Como a hanseníase é transmitida?

Este é um dos pontos mais importantes a saber sobre a doença. Afinal, muita gente ainda remete a hanseníase a histórias antigas, quando ainda não se conheciam as bactérias e as maneiras de combatê-las. Há milhares de anos, evitava-se ao máximo qualquer tipo de contato com os doentes. Hoje, esse tipo de estigma deve ser relegado, de fato, ao passado.

Se uma pessoa estiver infectada pela bactéria causadora da hanseníase e não estiver em tratamento, pode haver transmissão caso haja contato prolongado com outras pessoas. A transmissão se dá pelo contato com secreções, como as da tosse ou espirros, de uma pessoa infectada. Ou seja, a transmissão é similar a uma gripe.

Como a maioria das pessoas entra em contato com a bactéria em algum momento da vida, considera-se que boa parte da população tenha um grau de resistência natural a ela. Por isso que o ‘contato prolongado’ mencionado no parágrafo anterior é importante. E também por isso, quando uma pessoa é diagnosticada com hanseníase, parentes, amigos e qualquer pessoa que tenha morado junto com ela são também examinados pela equipe médica, que pode indicar medidas profiláticas (como a vacina BTG) para garantir que não foram infectadas pela bactéria.

 

Números da hanseníase no Brasil

Os últimos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde mostram um quadro preocupante sobre a hanseníase no país. Desde antes da pandemia, o país registra mais de 10 mil novos casos anuais, e há consenso de que este número é subnotificado, em especial por conta da falta de procura por cuidados de saúde no período mais grave da COVID-19.

Infelizmente, a hanseníase ainda é considerada uma doença ‘comum’ no Brasil.

Os números colocam o Brasil atrás apenas da Índia no ranking global de novos casos de hanseníase por ano. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, o boletim de 2020 da OMS sobre hanseníase aponta mais de 127 mil novos casos em todo o mundo. Desses, cerca de 18 mil foram notificados no Brasil, o que corresponde a 94% do total de casos da região das Américas e 14% do total global.

No último boletim do Ministério da Saúde, com dados referentes a 2021, o número de novos casos superou os 15 mil. O número de notificações de novos casos já foi muito maior – em 2017, por exemplo, foram 27 mil novos diagnósticos confirmados – porém ressalta-se que a pandemia pode estar mascarando uma realidade ainda bastante complexa da doença no país.

 

Como é feito o tratamento? Há cura para a doença?

Atualmente, a hanseníase é uma doença tratável e potencialmente curável. O diagnóstico é feito, basicamente, no próprio consultório médico, por meio do exame dos sinais no corpo e de testes de sensibilidade. O tratamento, extremamente eficiente, é feito com antibióticos, determinados de acordo com a severidade da doença e com a quantidade de bactérias presentes no corpo do paciente.

A partir do momento que o doente inicia o tratamento com antibióticos, já se considera que ele não mais transmite a doença (para ser mais exato, estima-se que, a partir de 15 dias da primeira dose de antibióticos, cessa a transmissão para outras pessoas). Ou seja, mesmo que os efeitos do medicamento ainda não tenham curado todos os sinais e sintomas da doença, ainda assim a pessoa já deixou de ser uma transmissora.

Os antibióticos deverão ser tomados por um período longo, que varia de seis meses a um ano. Se o tratamento for seguido corretamente, os principais sintomas da doença – como problemas de pele – serão curados. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, melhor e mais completa é a cura. Se, todavia, a bactéria tiver causado danos graves nos nervos (casos de diagnóstico muito tardio), estes infelizmente não poderão ser revertidos; nesses casos, a cura envolve a eliminação da bactéria do corpo e tratamentos posteriores com fisioterapia, por exemplo, para melhorar questões motoras afetadas pelos danos aos nervos.

 

O que é absolutamente essencial saber sobre a hanseníase? Especialistas apontam duas questões. A primeira é saber reconhecer os principais sintomas da doença, como manchas na pele e perda de sensibilidade, e procurar imediatamente suporte médico (além dos médicos dos serviços de saúde, dermatologistas também estão aptos a reconhecer e a diagnosticar a doença). A segunda, e tão importante quanto, é saber que a hanseníase, hoje, é uma doença tratável, curável, transmissível apenas se nenhum tratamento estiver sendo seguido, e que já deixou para trás um passado de estigmas para se tornar uma doença administrável por qualquer equipe médica. No momento, basta informação para que ela fique cada vez mais rara.

 

Dr. Theodoro Habermann Neto
CRM: 70488 / RQE: 33228

Médico Dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, título de Especialista em Dermatologia em 2000, médico do corpo clínico do Vera Cruz Hospital desde o ano de 2000. Médico assistente do ambulatório de Dermatologia e área de Psoríase de 1993 a 1995. Coordenador do serviço de dermatologia do Vera Cruz Centro Clínico.

 

Para saber mais:

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