Anabolizantes: quais os riscos para a saúde? Há dosagem segura? - Blog - Hospital Vera Cruz

24/07/2026

Anabolizantes: quais os riscos para a saúde? Há dosagem segura?

O Brasil passa por uma ‘epidemia’ no uso de anabolizantes. Conheça os efeitos no corpo humano e entenda se são seguros para ganho de massa muscular.

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No mês passado, uma das notícias que dominaram as redes sociais foi a morte do jovem atleta Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, devido a uma cardiomiopatia hipertrófica – um aumento patológico da espessura das paredes do coração.

A morte do atleta trouxe novamente à discussão os riscos cardiovasculares associados ao uso de esteroides anabolizantes.

Embora não seja possível estabelecer relação causal entre o uso dessas substâncias e o caso específico, sabe-se que os anabolizantes podem provocar remodelamento cardíaco patológico, disfunção ventricular e aumento do risco de arritmias e morte súbita. Para seus mais de 1.7 milhão de seguidores, Gabriel frequentemente relatava o uso de hormônios, como insulina e testosterona, a fim de aumentar a massa muscular.

 

Por que a cardiomiopatia hipertrófica é perigosa?

🩸 Na cardiomiopatia hipertrófica, o crescimento anormal do músculo cardíaco reduz o espaço interno dos ventrículos, comprometendo o bombeamento de sangue e impedindo a circulação adequada. Além disso, essa cardiomiopatia gera fibrose no músculo cardíaco. Estes fatores causam arritmias que podem ser fatais.

 

No país, vivemos uma ‘epidemia’ do uso de anabolizantes.

Segundo um estudo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um a cada 16 estudantes de Ensino Fundamental ou Médio já usou esse tipo de substância, um número altíssimo e que subiu muito nas últimas décadas – nos últimos 20 anos, o consumo aumentou 84% entre alunos no último ano do Ensino Médio, por exemplo. De acordo com dados da ANVISA, a venda de testosterona subiu mais de 700% nos últimos sete anos.

Mas o que são os anabolizantes, o que eles têm a ver com a testosterona e quais são seus efeitos no organismo? Seu uso sempre é contraindicado? É o que vamos descobrir a seguir.

 

O que são anabolizantes?

Os esteroides anabolizantes androgênicos são substâncias sintéticas derivadas da testosterona, desenvolvidas para reproduzir ou potencializar os efeitos desse hormônio no organismo. Podem ser administrados por via oral, intramuscular, transdérmica ou, em algumas formulações, por implantes subcutâneos.

A testosterona é produzida naturalmente pelo organismo, principalmente nos testículos, sob controle do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Ela exerce papel fundamental no desenvolvimento e na manutenção de diversas funções fisiológicas, incluindo a massa muscular, a saúde óssea, a produção de células sanguíneas, a função sexual e características sexuais masculinas.

Quando utilizados em doses suprafisiológicas — como frequentemente ocorre para fins estéticos ou de melhora do desempenho físico — os esteroides anabolizantes estimulam o aumento da síntese de proteínas musculares, favorecendo o ganho acelerado de massa e força. Também podem reduzir o tempo de recuperação após os treinos e promover diminuição da gordura corporal.

 

Riscos associados

É verdade que usar anabolizantes estimula o crescimento das células musculares. Entretanto, esses efeitos vêm acompanhados de riscos importantes à saúde. O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou esportivos não é considerado seguro e não existe uma dose comprovadamente livre de riscos para indivíduos saudáveis. Além disso, essas substâncias suprimem a produção natural de testosterona pelo organismo, podendo provocar alterações hormonais persistentes e complicações em diversos órgãos.

Entre as principais consequências do uso indiscriminado estão:

  • a hipertensão arterial,
  • infarto do miocárdio,
  • acidente vascular cerebral (AVC),
  • alterações do colesterol,
  • eventos trombóticos,
  • lesões hepáticas,
  • distúrbios psiquiátricos,
  • infertilidade
  • aumento do risco de morte súbita.

 

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Anabolizantes: efeitos colaterais e riscos à vida

Saúde cardiovascular

Os efeitos cardiovasculares dos esteroides anabolizantes estão bem documentados na literatura científica.

Essas substâncias promovem uma série de alterações que aumentam o risco de doenças cardiovasculares. Entre elas estão a redução do colesterol HDL (“colesterol bom”), o aumento do colesterol LDL (“colesterol ruim”), a elevação da pressão arterial, a maior tendência à formação de coágulos e o desenvolvimento precoce e acelerado da aterosclerose — processo caracterizado pelo acúmulo de placas de gordura e cálcio nas paredes das artérias, que pode levar ao infarto do miocárdio e ao acidente vascular cerebral (AVC).

Os efeitos sobre o próprio coração também merecem atenção. O uso prolongado de esteroides anabolizantes pode provocar aumento anormal da espessura do músculo cardíaco, além de favorecer o desenvolvimento de fibrose, um processo de cicatrização permanente que compromete o funcionamento do órgão. Essas alterações podem reduzir a capacidade de bombeamento do sangue, favorecer o aparecimento de arritmias potencialmente graves e aumentar o risco de insuficiência cardíaca e morte súbita.

 

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Saúde sexual

A produção de testosterona é regulada por um mecanismo sofisticado de controle hormonal. Quando uma pessoa utiliza esteroides anabolizantes, o organismo passa a detectar níveis elevados desse hormônio e reduz ou interrompe sua produção natural pelos testículos.

Como consequência, pode ocorrer diminuição do tamanho dos testículos (atrofia testicular), redução da produção de espermatozoides com queda da fertilidade e alterações da função sexual. Em alguns casos, essa supressão hormonal pode persistir mesmo após a interrupção dos anabolizantes, levando ao hipogonadismo e tornando necessária avaliação e tratamento especializados.

Embora muitos homens (que antes utilizaram anabolizantes) recuperem parcialmente ou totalmente a produção hormonal ao longo do tempo, essa recuperação não é garantida, especialmente após uso prolongado ou em altas doses.

 

Qualidade de vida comprometida

Os efeitos dos esteroides anabolizantes vão muito além do sistema cardiovascular e podem comprometer significativamente a qualidade de vida.

Alterações do sono, irritabilidade, ansiedade, oscilações de humor, agressividade e episódios de depressão estão entre os efeitos mais frequentemente relatados. Em algumas pessoas, também podem ocorrer dependência psicológica e dificuldade para interromper o uso.

No sistema musculoesquelético, embora promovam aumento da massa muscular, os anabolizantes também aumentam o risco de lesões e rupturas de tendões, especialmente quando o ganho de força ocorre mais rapidamente do que a capacidade de adaptação dessas estruturas. Em adolescentes, o uso pode ainda provocar fechamento precoce das cartilagens de crescimento, comprometendo a estatura final.

Em homens, também podem ocorrer ginecomastia (aumento das mamas), alterações da próstata e piora da fertilidade. Já na pele, são comuns aumento da oleosidade, acne e aceleração da queda de cabelo em pessoas geneticamente predispostas.

Além disso, alguns esteroides anabolizantes podem causar lesões hepáticas importantes, especialmente quando utilizados por via oral, e aumentar o risco de comprometimento da função renal, principalmente quando associados ao uso prolongado, desidratação ou outras substâncias potencialmente tóxicas.

 

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Existe uma maneira segura de usar anabolizantes para fins estéticos?

Nas redes sociais, divulga-se o mito de que existe um “jeito certo” ou uma dose “segura” de utilizar esteroides anabolizantes para fins estéticos ou para melhorar o desempenho físico. No entanto, essa afirmação não é sustentada pelas evidências científicas.

Até o momento, não existe uma dose comprovadamente segura de esteroides anabolizantes para indivíduos saudáveis com finalidade estética ou de aumento de performance. Diversos estudos associam seu uso ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, arritmias, insuficiência cardíaca, eventos trombóticos e morte prematura, especialmente quando utilizados em doses elevadas e por períodos prolongados.

 

E a insulina para ganho de massa?

💉 Outra prática que ganhou espaço nas redes sociais é o uso de insulina por pessoas sem diabetes para aumentar a massa muscular. A insulina é um hormônio naturalmente anabólico e participa do metabolismo da glicose e das proteínas. No entanto, não há evidências científicas que justifiquem seu uso para hipertrofia em indivíduos saudáveis.

Por outro lado, seu uso inadequado pode provocar hipoglicemia grave, convulsões, perda de consciência, coma e até morte, representando um risco elevado quando administrada sem indicação e acompanhamento médico

 

Em 2023, o Conselho Federal de Medicina proibiu médicos de receitar o uso de anabolizantes para ganho de massa muscular, melhora de performance esportiva ou fins estéticos, por falta de evidência científicas e de dados que garantam a segurança desses tratamentos.

 

Existe uso correto de anabolizantes?

Sim, existem situações em que hormônios derivados da testosterona têm indicação médica bem estabelecida. Nesses casos, o objetivo não é melhorar a estética ou aumentar o desempenho físico, mas tratar doenças específicas.

O exemplo mais comum é o hipogonadismo masculino. Nessas situações, a terapia de reposição de testosterona pode melhorar sintomas, qualidade de vida, função sexual, massa muscular e saúde óssea.

Alguns derivados da testosterona também podem ser utilizados em situações específicas, como determinados casos de atraso puberal, alguns tipos de anemia e condições associadas à perda importante de massa muscular, sempre conforme critérios médicos bem estabelecidos.

 

Finalidade e dose – as principais diferenças entre o tratamento médico e o uso para fins estéticos

💪 Na reposição hormonal, busca-se restabelecer níveis fisiológicos de testosterona, semelhantes aos que o organismo produziria naturalmente. Já no uso estético, são frequentemente empregadas doses muito superiores às necessidades do corpo, o que aumenta significativamente o risco de efeitos adversos e de complicações.

 

 

“Corpo perfeito” a qualquer custo?

A busca por resultados estéticos rápidos tem se intensificado nos últimos anos, impulsionada pela exposição constante nas redes sociais e pela valorização de padrões corporais muitas vezes difíceis de alcançar de forma natural. Nesse cenário, cresce também a disseminação de desinformação em saúde e de promessas de ganhos rápidos de massa muscular por meio do uso de medicamentos e hormônios sem indicação médica.

Essa combinação contribui para a banalização do uso de esteroides anabolizantes, frequentemente apresentados como uma alternativa segura para acelerar resultados estéticos. No entanto, as evidências científicas mostram que o uso dessas substâncias pode causar complicações importantes, muitas delas silenciosas e potencialmente irreversíveis.

“As evidências científicas mostram que o uso dessas substâncias pode causar complicações importantes, muitas delas silenciosas e potencialmente irreversíveis”

Na prática clínica, tem-se observado com maior frequência pacientes jovens apresentando alterações cardiovasculares, hormonais e metabólicas relacionadas ao uso indiscriminado de esteroides anabolizantes. Esse cenário reforça a importância de combater a desinformação e de incentivar estratégias seguras para a prática de atividade física e o ganho de massa muscular.

 

Fato: Anabolizantes não são necessários para a estética

O organismo humano funciona por meio de um delicado equilíbrio hormonal. Tanto a deficiência quanto os seus excessos podem comprometer seu funcionamento e favorecer o surgimento de doenças. Por isso, qualquer tratamento hormonal deve ter indicação médica precisa, objetivos terapêuticos bem definidos e acompanhamento adequado.

Os esteroides anabolizantes têm papel importante no tratamento de algumas doenças específicas, mas seu uso para fins exclusivamente estéticos ou de melhora do desempenho físico expõe indivíduos saudáveis a riscos que superam os potenciais benefícios. Alterações cardiovasculares, hormonais e metabólicas podem permanecer silenciosas por anos e, quando se manifestam, podem ser irreversíveis e potencialmente fatais.

Para quem deseja ganhar massa muscular e melhorar a composição corporal, existem estratégias seguras e eficazes. A combinação de treinamento resistido, alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, sono de qualidade e acompanhamento por profissionais qualificados é capaz de promover excelentes resultados de forma sustentável.

Em situações específicas, suplementos como creatina e whey protein podem ser úteis quando utilizados com orientação de médicos ou nutricionistas. Entretanto, nenhum suplemento substitui hábitos de vida saudáveis, e nenhum objetivo estético justifica colocar a saúde cardiovascular em risco.

HVC - Perfis de Médicos - Posts (Dr. Hugo Pazianotto)

 

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