Entenda o que é metanol, tipo de álcool utilizado na adulteração de bebidas, como ele age no corpo e as estratégias adotadas para salvar vidas.
Os brasileiros (especialmente no estado de São Paulo) seguem em alerta diante do recente surto de intoxicação por metanol. Até meados de outubro de 2025, o Ministério da Saúde havia registrado mais de 120 notificações de intoxicação, com óbitos confirmados em diferentes estados, incluindo São Paulo, Distrito Federal e Pernambuco.
As investigações apontam que bebidas adulteradas (principalmente gin, uísque e vodca) foram comercializadas em bares e adegas, com o uso criminoso de metanol industrial para aumentar o teor alcoólico de forma mais barata.
Não é a primeira vez que casos de intoxicação por metanol ocorrem no país. Em 1992, mais de 160 pessoas buscaram ajuda médica após consumirem, em uma danceteria de Diadema (SP), uma mistura de groselha e vodka conhecida como “bombeirinho”. A vodka havia sido adulterada com metanol. Quatro pessoas morreram.
As consequências da ingestão desse tipo de álcool são devastadoras para o corpo humano, como veremos a seguir.
O que é o metanol?
O álcool presente em bebidas alcoólicas não-adulteradas é o etanol, seguro para o consumo humano (quando em moderação).
Já o metanol é um tipo de álcool extremamente tóxico se ingerido. Ele é utilizado em processos industriais, como produção de solventes, plásticos e produtos químicos, e também pode ser usado como combustível.
O metanol é incolor e tem cheiro similar ao do etanol. Quando é misturado em uma bebida, é impossível sua identificação sensorial.
Um ponto interessante é que o metanol, em si, não causa danos gravíssimos ao corpo humano. Note-se que sua ingestão é tóxica, sim; porém, se o metanol se mantivesse em sua forma original, traria consequências muito menos graves. O problema é sua “transformação” pelo fígado. O fígado processa o metanol em dois verdadeiros “venenos” para o corpo, e quando estes dois passam a circular, podem ser fatais.
Veja também
Um resumo dos efeitos do metanol no corpo humano
Similar a uma ressaca no início, sintomas evoluem rapidamente para danos severos ao corpo
Ao ser consumido, o metanol é transformado em substâncias que acidificam o sangue e causam danos por todo o organismo, especialmente às células do sistema nervoso central e do nervo óptico (por isso há tantos casos de cegueira decorrentes do consumo de metanol). Confira a seguir um resumo dos sintomas.
Sintomas de intoxicação por metanol
Os sintomas iniciais podem surgir de 06 a 12h após o consumo da bebida com metanol. Esse tempo depende de diversos fatores, como a quantidade de álcool ingerido e se houve ingestão de outras bebidas alcoólicas contendo etanol ao invés de metanol (vamos entender o motivo disso adiante). Os primeiros sintomas se assemelham a uma ‘ressaca’ , mas evoluem rapidamente.
Fase inicial (6–12h):
- Dor de cabeça
- Tontura e sonolência
- Confusão mental
- Visão turva, fotofobia
- Náuseas, vômitos e cólicas abdominais
- Taquicardia e hipotensão
Fase tardia (6–24h após o início dos sintomas):
- Acidose metabólica grave
- Pancreatite e insuficiência renal
- Rigidez muscular, lentidão de movimentos
- Cegueira irreversível
- Coma
- Morte por falência múltipla de órgãos
Estima-se que o consumo de 10mL de metanol já leve à cegueira. 30mL é considerado um volume fatal. Em uma caipirinha, normalmente há de 30 a 45mL de álcool por copo.
Como o metanol age no organismo
O que gera danos à saúde não é o metanol em si, mas sim seus subprodutos
Ao ser ingerido, o metanol é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal, espalhando-se pelo corpo via os fluidos corpóreos. Nessa fase, o metanol não está causando danos – se ficasse assim, ‘passeando’ pelo corpo na forma de metanol, seria eventualmente eliminado pela urina, sem consequências extremamente graves.
O problema reside no fígado. Eventualmente, essas moléculas de metanol que estão espalhadas pelo sistema circulatório chegam ao fígado, onde são processadas. Ali, o metanol é transformado em formaldeído e em ácido fórmico, extremamente tóxicos ao corpo humano. São esses dois ‘venenos’ que geram os problemas mais graves relacionados à ingestão do metanol, como cegueira e danos ao sistema nervoso central.
O produto final do processamento do metanol pelo fígado é o ácido fórmico. Esse ácido, quando presente na corrente sanguínea, gera uma série de efeitos em cascata, progressivamente mais danosos à saúde. Além de acidificar o sangue, ele gera reações químicas que impedem que nossas células obtenham energia, impedindo suas funções metabólicas. Com isso, elas acabam morrendo. A cegueira, causada pela morte de células no nervo óptico, é uma das primeiras consequências do acúmulo desse ácido no sangue, justamente porque as células desse nervo (e as da retina) têm um consumo energético bastante elevado. Se não tratada, dentro de poucas horas (até 48h) essa perda de energia pelas células leva à falência múltipla de órgãos.
Felizmente, há um antídoto para a intoxicação por metanol
Maneiras de salvar a vida de pessoas com intoxicação por metanol incluem o uso do ´álcool normal’
Para ajudar o corpo a combater o ‘veneno’ que é o metanol, há um antídoto: o fomepizol. Infelizmente, não há registro para sua comercialização no país, e ele precisa ser importado em caráter emergencial quando ocorrem casos de intoxicação por metanol. A Anvisa autorizou sua aquisição temporária durante o surto de 2025.
O fomepizol age no fígado. Ele inibe a ação de enzimas que transformam o metanol nos dois ‘venenos’ mencionados anteriormente. Mais especificamente, o fomepizol inibe a enzima álcool desidrogenase, responsável por desencadear o processo. Com isso, o metanol ‘passa’ pelo fígado sem ser metabolizado, sendo eventualmente eliminado do corpo via urina (ou por hemodiálise, em casos mais graves de intoxicação).
Nem sempre é fácil um hospital ou centro de saúde ter fomepizol disponível para uso imediato. Ele costuma ser estocado em unidades especiais de toxicologia, muitas vezes distantes dos centros de saúde. Nos casos de intoxicação por metanol, todavia, agir com rapidez é fundamental. Nessas situações, uma alternativa para salvar vidas é o uso do etanol, em grau farmacêutico. Trata-se do mesmo álcool presente nas bebidas “normais”, porém purificado.
O etanol é administrado ao paciente em doses relativamente altas, porém ainda seguras. A ideia é que essa concentração permita ao etanol ‘chegar primeiro’ ao fígado e ‘ocupar’ a ação das enzimas transformadoras presentes no órgão. Felizmente, essas enzimas possuem uma ‘predileção’ (até 50x maior) para agirem sobre o etanol do que sobre o metanol. Ao estarem ativas convertendo etanol em outras substâncias muito menos danosas ao corpo que os produtos do metanol, o metanol presente na corrente sanguínea acabará passando pelo fígado sem ser processado, sendo eliminado pela urina em sua forma original.
O uso do etanol precisa ser controlado rigorosamente, já que pode causar efeitos colaterais e intoxicação moderada. O fomepizol, por outro lado, é a forma mais segura, rápida e eficaz de combater os efeitos do consumo de metanol.
Em situações graves, em que o paciente já chega ao hospital com sintomas oculares ou no sistema nervoso, é iniciado o tratamento via hemodiálise, que busca retirar o metanol do sangue o mais rápido possível.
A cada 05 dias, uma fábrica ilegal de bebidas é interditada no Brasil
Na hora de beber, é importante estar atento(a) à qualidade do estabelecimento e do produto comprado
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 20% das bebidas alcoólicas vendidas no mundo são adulteradas ou provenientes de fontes ilegais – ou seja, não são seguras para consumo.
O grupo Médicos Sem Fronteiras monitora casos de intoxicação por metanol em todo o mundo e aponta que, quando há surtos como este brasileiro, a taxa de mortalidade é de 20% a 40% – um número altíssimo. Nos últimos 25 anos, segundo o grupo, mais de 40 mil pessoas foram afetadas pelo consumo de metanol em bebidas adulteradas, com mais de 14.3 mil óbitos.
Segundo a OMS, mais de 20% das bebidas alcoólicas vendidas no mundo são adulteradas
Aqui no Brasil, a situação é muito preocupante. Levantamento da Associação Brasileira de Combate à Falsificação indica que, em 2024, uma fábrica ilegal de bebidas alcoólicas foi interditada a cada 05 dias no país. 185 mil garrafas de bebidas alcoólicas adulteradas foram retiradas de circulação no período de janeiro a agosto de 2024. Todo o cuidado é pouco na hora de se divertir com um drinque.
Governos e mídias estão divulgando orientações sobre como se proteger das bebidas adulteradas. Além de focar nessas dicas, é importante estar atento aos sinais e sintomas característicos da intoxicação por metanol. A partir do momento que perceber sintomas como os mencionados neste artigo – e especialmente se problemas na visão forem relatados -, procure atendimento médico com urgência. Quando o assunto é intoxicação, especialmente com metanol, cada minuto conta.
Para saber mais:
- Números do Ministério da Saúde sobre o surto
- Biblioteca Virtual em Saúde – orientações sobre metanol
- Detalhes sobre casos anteriores
- Adulteração de bebidas no Brasil



