Mais de 10 milhões de pessoas ficam doentes pela tuberculose todos os anos. Saiba detalhes deste enorme desafio de saúde, curiosidades de sua história, causas, sintomas e tratamentos.
24 de março é uma data histórica para a saúde. Neste exato dia, há 143 anos, o dr. Robert Koch anunciou ter descoberto a causa da tuberculose, uma doença que, à época, era a razão por trás de 01 a cada 07 mortes nos Estados Unidos e na Europa. Ninguém sabia o que levava à doença – pensava-se, por exemplo, que a tuberculose era hereditária, passada dos pais para os filhos. Naquele ano de 1882, Koch identificou uma bactéria – a Mycobacterium tuberculosis – como a causadora desse enorme problema de saúde pública, o que abriu caminhos para a busca de curas e de novos tratamentos.
Por causa dessa descoberta, o Dr. Koch ganhou o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1905.
Se esta é uma história que parece antiga, lá do final do século 19, vale notar que, infelizmente, a tuberculose continua mais moderna do que nunca. Mesmo com toda a tecnologia avançada dos dias atuais e os medicamentos antimicrobianos abrangentes disponíveis, a doença ainda afeta 27 mil pessoas todos os dias no mundo, levando a mais de 4.100 óbitos diários, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde.
Dados globais da ONU para 2023 indicam que 10.8 milhões de pessoas ficaram doentes por causa da tuberculose, com 1.25 milhões de mortes, o que torna a doença uma das mais impactantes. Todavia, também segundo a entidade, nos últimos 25 anos quase 80 milhões de vidas foram salvas como consequência de ações de combate e controle da doença.
O principal a saber: apesar de ser considerada uma epidemia global (e ser, hoje, a doença infecciosa que mais mata no mundo, tendo passado à frente da COVID-19 em 2023), a tuberculose é tratável, prevenível e curável. Para tanto, é preciso ter um suporte de saúde de qualidade e saber o que fazer para seguir corretamente os (longos) tratamentos.
O mês de março é de campanhas globais contra a tuberculose. O lema deste ano é “Sim! Nós podemos acabar com a tuberculose!“, divulgada pelas maiores associações médicas e de saúde pública do mundo. A meta é atingir, até 2030, a erradicação da doença, um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU para este século.
Ao longo do mês, posts nas redes sociais alertam sobre os perigos da doença e chamam a atenção para três fatores que todos deveriam conhecer sobre ela:
1) A tuberculose é tratada com antibióticos;
2) Os medicamentos precisam ser tomados diariamente, por no mínimo 06 meses, para serem eficientes;
3) Parar o tratamento antes do indicado pode levar à tuberculose resistente a medicamentos.
A tuberculose: uma inimiga de Humanidade de longa data!
A infecção pulmonar causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis afeta os seres humanos (e outros animais) há milênios. Algumas pesquisas sugerem que essa bactéria existe na natureza há pelo menos 03 milhões de anos. Em humanos, a doença já era conhecida desde a Antiguidade, com alguns dos primeiros relatos detalhados sendo mencionados em obras da Índia (há mais de 3.300 anos), da China (2.300 anos atrás) e da Grécia Antiga (quando era mencionada com o nome de ‘phthisis‘).
Na Idade Média europeia, estima-se que a tuberculose causava cerca de 25% das mortes no continente. Nos anos 1700, a doença era chamada de “peste branca”, devido à cor pálida das pessoas acometidas. O nome ‘tuberculose’ foi cunhado em 1834.
Como sabemos hoje, a tuberculose é causada por uma bactéria. E bactéria se cura com antibióticos. O que se fazia antigamente, então, quando não havia esses medicamentos?
Antes da descoberta dos antibióticos e de seu uso para tratar a doença nos anos 1940, a tuberculose era tratada com uma “técnica” que os médicos chamavam de “lana, letto, latte“, do italiano “lã, cama e leite”. Ou seja: a indicação era se manter aquecido, descansar e se alimentar bem. Para quem tinha mais recursos, era comum a internação nos chamados “sanatórios”, ou seja, locais em que os doentes ficavam em isolamento (longe dos familiares), idealmente em quartos ou ambientes com bastante circulação de ar durante o dia, em repouso e recebendo alimentação nutritiva.
O que se sabe hoje sobre causa e transmissão da tuberculose
Atualmente, tanto as causas quanto os meios de transmissão da doença são bem conhecidos. Sabe-se que a tuberculose é causada por uma bactéria, que se instala nos pulmões (na maior parte dos casos). Quando uma pessoa está doente com tuberculose, ela pode eliminar esses microrganismos no ambiente quando tosse, espirra ou fala, infectando pessoas próximas. É por isso que se acreditava, no passado, que esta era uma doença hereditária: quanto mais tempo se passava perto de um doente, maiores as chances de também ficar doente, e o ambiente caseiro, familiar, era um forte propagador da doença.
Normalmente, o sistema imune é capaz de lidar com a Mycobacterium tuberculosis, eliminando-a ou mantendo-a ‘sob controle’ (ou seja, impedindo-a de se multiplicar de forma descontrolada). Todavia, se a imunidade estiver baixa ou a pessoa tiver outras doenças que afetam o sistema imune (como é o caso de doenças como câncer, diabetes e AIDS), a bactéria pode afetar de forma perigosa diversos órgãos. A tuberculose é mais comum de ser identificada nos pulmões, porém pode também estar presente nos linfonodos, no cérebro, nos rins, ossos e sistema nervoso.
Estima-se que 10 a 15% da população global terá tuberculose em algum momento da vida.
Hoje em dia, sabe-se que a transmissão da tuberculose se dá quando uma pessoa infectada com a bactéria nos pulmões ou na garganta tosse, espirra ou se comunica de forma enfática. Essas ações eliminam germes no ambiente, que podem ficar suspensos no ar durante várias horas, ou então contaminar superfícies. Sabe-se, também, que a tuberculose não é transmitida pelo contato físico (apertar a mão de um doente não leva à infecção), nem pelo compartilhamento de roupas, alimentos ou utensílios, e nem mesmo com um beijo.
Sintomas da tuberculose: o que ela causa e como identificá-la?
Como vimos acima, a tuberculose pode afetar diversos órgãos do corpo humano. O mais comum é a doença estar centrada nos pulmões. Nesses casos, sintomas que podem surgir são:
- Tosse persistente, com duração superior a três semanas
- A tosse pode evoluir para a presença de sangue no escarro
- Febre e suores noturnos
- Dores no peito
- Perda de peso e de apetite
Sintomas diferentes podem surgir caso a tuberculose afete outros órgãos. A meningite causada pela tuberculose (quando a doença se encontra no cérebro), por exemplo, pode levar a fortes dores de cabeça ou à confusão mental. Caso atinja os linfonodos, pode resultar em aumento dos gânglios linfáticos, que podem ser dolorosos. A presença de sangue na urina pode ser um indicativo da infecção nos rins.
Em uma consulta médica, a equipe de saúde verificará os sintomas, o histórico do paciente e poderá pedir exames laboratoriais e de imagem (como tomografias) a fim de confirmar o diagnóstico. Exames adicionais podem ser requisitados para determinar em quais órgãos ou regiões do corpo a bactéria está presente.
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, 2023 foi o ano com o maior número de casos de tuberculose da série histórica. Na região das Américas, quase 100 pessoas morreram todos os dias por causa dela (foram 35 mil óbitos no ano). Diariamente, 900 pessoas ficaram doentes (342 mil casos no ano). Na região, 29% das mortes relacionadas à tuberculose foram decorrentes de coinfecção com o vírus HIV.
A tuberculose tem cura e tratamento!
Felizmente, no último século, a evolução da Medicina trouxe não apenas um conhecimento avançado sobre a tuberculose, como também maneiras práticas e rápidas de diagnóstico e tratamentos eficazes. Hoje, a tuberculose é considerada uma doença prevenível, tratável e curável.
O mais importante é manter o tratamento – que pode ser longo, de seis a nove meses -, o que garante que praticamente todas as bactérias serão eliminadas do corpo e que cepas resistentes a antibióticos não tenham possibilidade (nem tempo) de evoluir. É comum os medicamentos serem administrados diariamente, o que reforça ainda mais a necessidade de um acompanhamento bastante estrito das indicações médicas.
Se há métodos diagnósticos e tratamentos eficientes disponíveis, por que a tuberculose ainda é tão impactante?
Infelizmente, a realidade no mundo não é a de sistemas de saúde bem equipados, com medicamentos disponíveis, e nem de populações saudáveis e que eventualmente possam entrar em contato com a bactéria. O sistema imune precisa estar forte a fim de combater a doença e impedir sua progressão. Populações vulneráveis – seja pela desnutrição, seja pela falta de suporte médico adequado, seja por estarem com outras doenças não-tratadas que afetam a imunidade – são o motivo número um dos índices altíssimos de tuberculose pelo mundo (e é por isso que existem as campanhas globais, como as deste mês de março, que buscam soluções para o problema).
Sendo assim, todos nós devemos estar atentos, porque a tuberculose é amplamente transmissível, precisa ser tratada com rigor (a fim de evitar o surgimento de novas variantes resistentes a antibióticos) e, como discutimos, existe há milênios, podendo afetar qualquer pessoa, não importa onde viva ou seu estado de saúde. Reconhecer o perigo deste inimigo milenar – e saber como combatê-lo – é o primeiro passo para a sua erradicação.
Para saber mais:
- ONU – Campanha do Dia Mundial contra a Tuberculose: https://www.who.int/campaigns/world-tb-day/2025
- Pan American Health Organization sobre tuberculose: https://www.paho.org/en/world-tuberculosis-day



