Aprovação de vacina nacional – primeira no mundo de dose única e de alta eficiência contra a dengue – e inauguração de biofábricas de Aedes com Wolbachia trazem esperança de controle da epidemia a partir deste ano.
Boas notícias com relação a doenças epidêmicas são raras. Mas, pelo menos para uma delas, 2026 começa com novidades bastante positivas. Estamos falando da dengue, que mostrou forte redução no número de casos no ano passado e que ganhou duas novas e poderosas armas de combate:
- uma vacina de alta eficiência e de dose única e
- a ampliação da produção nacional de ‘mosquitos especiais’, com menor capacidade de transmitir a doença.
Vamos começar com a vacina. A Butantan-DV é a primeira vacina contra a dengue no mundo capaz de combater os quatro sorotipos da doença com uma única aplicação. Recém-aprovada pela ANVISA, ela deverá começar a imunizar os brasileiros já em 2026.
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(após um ano historicamente ruim)
O Ministério da Saúde informa que houve redução de 75% no número de casos de dengue em 2025 na comparação com o ano anterior. Até outubro, foram registrados 1.6 milhão de casos prováveis da doença, com 1.6 mil óbitos confirmados (um número 72% menor do que no mesmo período de 2024).
Essa redução é impressionante, mas vale notar que 2024 representou a maior epidemia de dengue da história do Brasil, com mais de 6.5 milhões de casos (quatro vezes mais que em 2023) e 6 mil mortes confirmadas.
Aprovada a Butantan-DV
a nova vacina contra a dengue 100% nacional
No final de novembro de 2025, a ANVISA aprovou o uso da nova vacina contra dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan – e já está incluindo o imunizante no calendário nacional do SUS.
Essa nova vacina se chama Butantan-DV e tem como grande diferencial ser de dose única e combater os quatro sorotipos da doença.
A nova vacina utiliza a tecnologia de vírus atenuado e apresentou eficácia de 74.4% em estudos com pessoas entre 12 e 59 anos – o público-alvo que deverá ser vacinado a partir de 2026 (a faixa etária exata ainda está para ser confirmada). Isso significa que ela evitou a doença em aproximadamente 74% das pessoas testadas.
Para outras faixas etárias, estudos adicionais sobre segurança e eficácia precisam ser feitos. O Butantan já recebeu aprovação da ANVISA para pesquisas com pessoas entre 60 e 79 anos, e dados clínicos de estudos anteriores mostraram que ela é segura para crianças de 02 a 11 anos (porém, mais dados são necessários antes da inclusão das crianças no calendário vacinal).
Vacina de alta eficiência, com poucos efeitos adversos
Nos estudos clínicos mais recentes, o nível de proteção da Butantan-DV chegou a quase 90% em pessoas que já haviam sido infectadas pela dengue previamente, uma métrica excelente.
Além disso, dentre os mais de 16 mil voluntários que testaram a vacina (e foram acompanhados pelos últimos cinco anos), menos de 0.1% apresentou eventos adversos graves. Todos esses casos tiveram recuperação completa. As queixas mais frequentes foram com relação a dores ou vermelhidão no local da aplicação, dor de cabeça e fadiga – sintomas ‘tradicionais’ relatados por pessoas vacinadas, no geral.
Vale notar que não houve casos de hospitalização por dengue em pessoas que tomaram a vacina, um outro indicativo adicional de seu fator protetor.
Em artigo publicado no periódico científico The Lancet Regional Health – Americas, os pesquisadores do Instituto apontam que a vacina foi capaz de reduzir consideravelmente a replicação do vírus após um contágio, o que é uma ótima notícia. Com menos vírus circulando pelo corpo, os sintomas podem ser menos graves, complicações podem ser mais raras e até mesmo as chances de transmissão do vírus da dengue para os vetores (mosquitos) seriam menores.
O Butantan afirmou que já tem mais de um milhão de doses da nova vacina prontas para uso pelo SUS. Até o final de 2026, cerca de 30 milhões de doses deverão ser produzidas.
Além da vacina do Butantan
conheça as outras opções contra dengue
Até pouco tempo atrás, a única medida preventiva que tínhamos contra a dengue era evitar a picada do mosquito. Há poucos anos, todavia, opções de vacinas começaram a surgir, ampliando a proteção. Essas ‘primeiras gerações’ de vacinas contra a dengue, porém, apresentam alguns ‘problemas’ que a nova versão do Butantan pretende corrigir.
Por exemplo, a Qdenga, vacina mais aplicada no país e que foi incorporada ao SUS em 2024, exige 02 doses, com intervalo de três meses entre elas, e é focada em crianças a partir de 04 anos e adultos até os 60 anos (no SUS, é aplicada em crianças e adolescentes de 10 e 14 anos, faixa etária com maior número de hospitalizações pela doença após os idosos). Esses fatores – especialmente as duas doses, com intervalo de três meses entre elas – limitam seu potencial de imunizar a população, já que nem sempre é fácil garantir que uma pessoa retorne após três meses para tomar uma segunda dose (essencial para que a vacina tenha efeito). Além disso, sua eficácia geral é de 60% para os quatro sorotipos do vírus.
Quanto menos doses, melhor!
Estudos apontam que programas de imunização com menos doses estão associados a uma melhor cobertura vacinal e enfrentamento de doenças. Quanto menos doses, mais eficientes as campanhas vacinais. Por isso a ‘dose única’ do Butantan traz tantas esperanças de combate à epidemia de dengue.
Comparativamente, a Dengvaxia, uma das primeiras vacinas lançadas contra a dengue, exige três aplicações, com seis meses de intervalo entre cada uma, para proteção contra os quatro sorotipos. Ou seja, a imunização completa leva um ano inteiro. Além disso, ela é indicada apenas para pessoas que já foram infectadas pela dengue anteriormente.
E quanto às vacinas para Zika e Chikungunya?
Evitar as picadas ainda é a melhor proteção
A picada do mosquito Aedes aegypti é capaz de transmitir outras doenças além da dengue. Particularmente perigosas são a Zika e Chikungunya, para as quais ainda não há proteção vacinal amplamente disponível – mas com diversas pesquisas em andamento.
Em 2025, avanços significativos foram reportados por pesquisadores da USP em estudos sobre proteção vacinal de camundongos contra o vírus da Zika. A imunização testada foi capaz de proteger os animais de danos cerebrais e testiculares associados à doença. Os estudos prosseguem, mas uma vacina para humanos ainda está longe de ser disponibilizada.
Já para a Chikungunya, há ao menos duas opções de vacinas já disponíveis em alguns países. Elas costumam ser recomendadas apenas para pessoas que vão passar longos períodos em regiões em que a doença é endêmica, ou estão passando por um surto recente. Uma delas, utilizando vírus atenuado, foi recentemente suspensa pela agência reguladora dos Estados Unidos, dados potenciais eventos adversos em idosos relatados em diversos países. Essa mesma vacina foi aprovada pela ANVISA em abril do ano passado para estudos pelo Instituto Butantan, que desenvolverá uma versão aqui no Brasil, com parte do processo produtivo em solo nacional, e meta de incorporação pelo SUS.
O vírus da Chikungunya é recente. Ele foi detectado no continente americano pela primeira vez em 2013. Em 2014, os primeiros casos foram confirmados no Brasil (no Amapá e na Bahia). Atualmente, há registros em todos os estados. Em 2024, o Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde indica 267 mil casos prováveis da doença, com pelo menos 213 mortes.
Brasil tem as maiores “biofábricas de mosquitos” do mundo
Tecnologia protegerá milhões contra a dengue, Zika e Chikungunya
Em 2025, as duas maiores biofábricas de Wolbachia do mundo foram inauguradas no Brasil, uma em Curitiba e outra em Campinas. Juntas, terão capacidade para produzir quase 300 milhões de ovos ‘especiais’ de Aedes por semana.
‘Especiais’ porque os mosquitos produzidos nas biofábricas nascerão contaminados por uma bactéria específica (chamada Wolbachia), que dificulta a multiplicação dos vírus causadores da dengue, Zika e Chikungunya. Estudos apontam uma redução de até 75% na transmissão da dengue por mosquitos que possuem esta bactéria.
A tecnologia de ponta está sendo estudada há mais de 10 anos no país. Nas cidades em que os mosquitos com Wolbachia foram liberados no ambiente, houve redução expressiva no número de casos de dengue – em Niterói (RJ), por exemplo, essa redução chegou a 69%, e em Campo Grande (MS), 63%.
O Ministério da Saúde promete ampliar a liberação de mosquitos modificados nas cidades com maior incidência da dengue já em 2026, representando proteção adicional contra a doença a mais de 140 milhões de brasileiros.
Um futuro sem dengue é possível?
Em resumo: a dengue poderá, muito em breve, ser uma doença controlada aqui no Brasil, afetando a população de maneira significativamente menor do que ocorre atualmente.
A vacina promete proteção eficiente contra a doença e, mesmo em casos de infecção, os efeitos no corpo poderão ser menores. A ampliação na capacidade de produção de mosquitos que não transmitem vírus pode mudar a vida de milhões de pessoas no futuro próximo, reduzindo drasticamente os casos das principais arboviroses.
Seja para dengue, Zika ou Chikungunya, estudos estão em andamento tanto no Brasil quanto ao redor do mundo para novas vacinas e tratamentos, e devemos ter mais boas notícias nos próximos anos. Por ora, valem as orientações tradicionais para evitar picadas, especialmente na época do verão: limpar locais de acúmulo de água, utilizar telas em janelas caso resida em regiões com alta incidência de doenças transmitidas por mosquitos e passar repelente à base de DEET (N-N-dietilmetatoluamida), IR3535 ou de icaridina nas regiões expostas do corpo.
Para saber mais e referências:
- Live, Attenuated, Tetravalent Butantan–Dengue Vaccine in Children and Adults. N Engl J Med 2024;390:397-408 VOL. 390 NO. 5. DOI: 10.1056/NEJMoa2301790
- Efficacy and safety of Butantan-DV in participants aged 2–59 years through an extended follow-up: results from a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3, multicentre trial in Brazil. The Lancet Infectious Diseases, Volume 24, Issue 11, 2024. DOI 10.1016/S1473-3099(24)00376-1.





