Surto de gastroenterite na virada para 2025 acendeu o alerta para as chamadas “doenças de praia”. Saiba o que costuma causar esses problemas gastrointestinais e o que fazer para proteger sua saúde.
No início de janeiro, a cidade de Guarujá, no litoral de São Paulo, decretou oficialmente estar passando por um surto de gastroenterite – e isso bem no auge das férias de verão, na época mais movimentada do ano. Outras cidades próximas, como Praia Grande, também estavam em situação de atenção.
Milhares de pessoas que passaram o Natal e o Réveillon na praia alertaram nas redes sociais sobre a situação ‘caótica’ do litoral paulista, com hospitais (tanto da rede pública quanto privada) e postos de saúde lotados, imensas filas de espera para atendimento e falta de medicamentos nas farmácias.
Um levantamento da rádio CBN [1] junto às Secretarias de Saúde de cidades da Baixada Santista apontou mais de 8,5 mil casos de gastroenterite na região, no período entre o Natal e o Ano Novo.
Os sintomas relatados por quem ficou doente nesta virada de ano foram náuseas, diarreia, dores intensas na barriga e vômitos. Nada ideal para um período que deveria ser de férias e celebrações!
A prefeitura e o governo do estado monitoram a situação – que melhorou nas últimas semanas. Ainda não foi revelado o possível ‘causador’ do surto – se foi água do mar contaminada por esgoto clandestino, problemas no sistema de saneamento público ou algum poço repleto de microrganismos. Em estudos preliminares, a água das principais praias do Guarujá, por exemplo, não havia demonstrado índices anormais de poluentes (apesar de não estarem necessariamente ‘limpas’, e do norovírus ter sido encontrado em algumas delas).
Segundo o parâmetro da CETESB, a água de uma praia é imprópria para banho quando análises químicas encontram mais de 100 colônias de bactérias para cada 100 mililitros de água.
Na dúvida, o melhor a fazer é se proteger! Gastroenterites são extremamente comuns durante os períodos de férias, especialmente no verão e nas praias, seja aqui no Brasil, seja em outros países de clima quente. A seguir, vamos entender o que causa esse problema e o que fazer para se proteger e curtir as férias de maneira mais segura!
O que é a gastroenterite?
‘Gastroenterite’ é o nome que se dá à inflamação do estômago e/ou do intestino, gerando sintomas como diarreia intensa e repentina, dores abdominais, vômito, febre (baixa) e mal-estar geral – ou seja, sinais de que o corpo precisa ‘expulsar’ o conteúdo estomacal e intestinal. A gastroenterite, na maior parte dos casos, é causada justamente pelo consumo de alimentos ‘estragados’ ou de água contaminada, contendo alta quantidade de microrganismos nocivos à saúde.
Tanto vírus quanto bactérias e parasitas podem causar gastroenterite. Alguns dos mais comuns são o rotavírus e o norovírus (este é o apontado como potencial ‘vilão’ das férias nas praias paulistas), assim como bactérias como Bacillus cereus, Clostridium perfringens, Escherichia coli patogênica, Salmonella e Shigella. Dentre os parasitas, os mais comuns são a Giardia lamblia e a Entamoeba histolytica.
Os sintomas da doença aparecem rápido, de 24 a 48h após o consumo do alimento, e duram de 3 a 5 dias (até 10 dias, nos casos mais graves). O tratamento é feito com repouso, ingestão de bastante líquido, dieta leve (rica em fibras e probióticos, preferencialmente) e, quando há confirmação do agente causador, de medicamentos específicos, como antibióticos e antieméticos. Medicamentos de farmácia também podem ser utilizados, especialmente para ajudar a baixar a febre ou controlar sintomas como vômito.
Apesar da maior parte dos casos ocorrer devido ao consumo de alimentos ou de água, é possível ficar doente entrando em contato com pessoas que apresentam sintomas de gastroenterite ou com objetos contaminados, especialmente se a imunidade estiver baixa.
É possível prevenir as doenças de praia e de verão?
Durante o verão e as férias, é comum as pessoas ‘relaxaram’ um pouco e curtirem os dias de maneira mais ‘leve’, o que pode resultar em descuidos com a saúde. O excesso de “sal e sol”, o forte calor, as aglomerações nos centros turísticos, as mudanças alimentares e nos padrões de sono – tudo isso colabora para um organismo trabalhando em modo ‘diferente’ do normal, com potenciais impactos no sistema imune.
Principalmente, a alimentação pode mudar bastante para quem gosta de pegar uma praia. A fim de aproveitar ao máximo o tempo de exposição ao sol, almoços são ‘pulados’, substituídos por comida levada para a praia ou comprada ali mesmo. É aí que muitos problemas podem surgir: falta de higiene adequada, acomodação inadequada de alimentos sob o forte calor do verão, pouco tempo de cozimento, uso de água não tratada…às vezes, nem um sistema imune fortíssimo é capaz de lidar com essa alta carga de ‘trabalho extra’.
Ainda assim, é possível, sim, se proteger das temidas ‘doenças de praia’ e manter estômago e intestino saudáveis durante todas as férias. Há algumas dicas e orientações muito úteis e práticas para esta época do ano. Confira a seguir.
Dicas para se proteger das doenças de praia!
Consumo de alimentos
A maior parte das doenças de praia e contaminações provavelmente se dá pela ingestão de água contaminada. Por isso, consuma apenas água filtrada ou que tenha vindo de embalagens lacradas.
Qualidade da praia
Fique de olho nos boletins sobre a qualidade da água. Especialmente durante o verão, há grande divulgação pública sobre o status de segurança das praias; qualquer sinal de qualidade insatisfatória deve ser levado muito a sério, e a praia evitada. Se você chegar a uma praia e notar sinais desagradáveis – como esgoto a céu aberto ou mau cheiro –, prefira outro local para se bronzear e se divertir.
A qualidade das águas das praias pode ser acompanhada no website da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). O site possui uma interface amigável e é atualizado diariamente, mostrando via bandeirinhas verdes ou vermelhas se uma praia está ou não indicada para banho.
Areia
Além da água, vale notar que é possível se contaminar com vírus, bactérias e parasitas também pela areia! Por isso é tão importante ficar de olho nos boletins da CETESB e prestar bastante atenção à ‘qualidade’ geral da praia. Caso haja esgoto sem tratamento sendo despejado por perto, as areias também podem estar contaminadas. Em 2009, um estudo publicado no American Journal of Epidemiology [2] descobriu que o mero ato de cavar a areia ou ficar com o corpo enterrado sob ela aumentava as taxas de diarreia em banhistas.
Compras na praia
Há diversas gostosuras praianas que abrem o apetite dos banhistas. Apesar de serem vendidas de maneira corriqueira e passarem boa parte do dia sob forte calor, a maioria desses alimentos é razoavelmente segura, como o milho cozido, o queijo coalho preparado no fogo, o salgadinho vendido em pacotes fechados ou a pipoca feita na hora. Todavia, há ‘gostosuras’ que é melhor evitar: dois dos grandes vilões do estômago no período de férias são os frutos do mar e os ‘sacolés’ (‘raspadinhas’). A não ser que sejam comprados em locais extremamente confiáveis (e de preferência fora da areia), evite-os. As chances de causarem problemas são bastante altas.
Preparação de alimentos
Apesar do calor clamar por alimentos mais leves e simples, vale mais a pena cozinhá-los bem e garantir a saúde intestinal.
Álcool em gel
E a história do álcool em gel? Nas redes sociais, ficou popular a divulgação de vídeos em que pessoas levavam álcool em gel para a praia, a fim de higienizar cadeiras, guarda-sóis e utensílios. Apesar de dificilmente essas medidas protegerem de forma eficiente contra vírus, é uma boa ideia, sim, usar o álcool em gel nas mãos antes de se alimentar, especialmente se não houver um local por perto em que se possa lavá-las com água e sabonete.
Higiene a 100%!
Durante o verão, atente-se ainda mais para a “higiene pós-banheiro“, com uma lavagem caprichada das mãos e unhas, sempre com sabão ou sabonete. A dica é válida porque não é incomum, em momentos de descontração na praia ou na piscina, a ida ao banheiro ser mais ‘rapidinha’ e a higiene ser deixada um pouco de lado. Lembre-se de que a principal forma de contágio das doenças de praia é pela via oral, levando-se a mão contaminada à boca.
Com um pouco de cuidado e atenção com relação ao ambiente ao seu redor, ao que se está comendo e à higiene, o verão pode ser lembrado apenas pelo seu lado positivo: sol, calor, família, amigos, e muita diversão. Nosso corpo já estará trabalhando em modo ‘extra’ a fim de garantir férias bem aproveitadas; toda ajuda que pudermos fornecer para ele e para o sistema imune será revertida em tranquilidade e mais saúde!
Referências
- O Estado de São Paulo, “O Verão da Gastroenterite”, 09 de janeiro de 2025. Acesso em https://www.estadao.com.br/opiniao/o-verao-da-gastroenterite/
- Christopher D. Heaney, Elizabeth Sams, Steve Wing, Steve Marshall, Kristen Brenner, Alfred P. Dufour, Timothy J. Wade, Contact With Beach Sand Among Beachgoers and Risk of Illness, American Journal of Epidemiology, Volume 170, Issue 2, 15 July 2009, Pages 164–172, https://doi.org/10.1093/aje/kwp152



