Boca limpa, corpo saudável: como a saúde oral reflete a saúde geral do corpo (e vice-versa!)? - Blog - Hospital Vera Cruz

03/07/2025

Boca limpa, corpo saudável: como a saúde oral reflete a saúde geral do corpo (e vice-versa!)?

Diversas doenças que afetam o coração, os vasos sanguíneos, os pulmões e até mesmo o cérebro podem ter origem onde menos se espera – na boca! Conheça mais sobre esta conexão com a saúde oral.

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“A boca faz parte do corpo humano?”

Essa pergunta pode soar absurda, mas você já reparou como a boca parece estar ‘desconectada’ do restante do corpo quando o assunto é saúde?

Ainda é muito comum a noção de que médicos tratam da saúde do corpo como um todo – da cabeça aos pés, literalmente –, porém a boca “fica de fora”. Ela surge como uma entidade ‘separada’, cuidada unicamente pelo dentista e desconectada do restante do organismo.

Será que faz sentido pensar assim?

 

Reavaliando a Importância da Boca

A importância da boca não pode ser diminuída. Afinal de contas…

 

  • Ela é uma “porta de entrada” para o sistema digestório e para o respiratório, com forte impacto também no sistema imunológico;
  • Os dentes, as gengivas e as mucosas possuem muitos vasos sanguíneos, e os microrganismos da boca, caindo na corrente sanguínea, podem se espalhar pelo corpo, podendo até desencadear uma infecção grave como a sepse;
  • A boca é o local em que os alimentos começam a ser processados pelo corpo – uma atividade que se inicia antes mesmo da mastigação, quando ela se enche de saliva ao sentirmos um cheirinho bom de comida!
  • Sinais que podem aparecer na boca – como problemas de gengiva, mau hálito ou dentes mais fracos e quebradiços – podem ser indícios de doenças que estão afetando o organismo;
  • O contrário também é verdade: muitas doenças que se iniciam na boca podem resultar em sintomas (alguns deles muito graves) perceptíveis em regiões distantes no corpo.

A boca é lar de bilhões de bactérias e de microrganismos. Estima-se que haja cerca de 700 espécies diferentes de microrganismos na boca de cada pessoa, em um total de 50 a 100 bilhões de células. Usualmente, com uma boa higiene oral, esses micróbios se mantêm sob controle e nosso sistema imune é capaz de controlá-los com sucesso. Se deixarmos que se multipliquem livremente, contudo, as consequências não tardam a aparecer.

Os primeiros sintomas são locais – como gengivite, mau hálito, cáries, abscessos (bolsas de pus). Mas vale lembrar: a boca é um ‘portal’ para o corpo. Se esses microrganismos estão na boca, então eles possuem acesso muito facilitado ao nosso interior, seja via gengivas inflamadas, seja por dentes cariados ou lesões na mucosa oral (sem contar o acesso via deglutição e via respiração). Com isso, podem causar problemas gravíssimos em diversos órgãos ou sistemas se estiverem se multiplicando livremente, como veremos a seguir.

Em resumo: está na hora de “reconectar” a boca ao restante do organismo quando falamos de saúde. Saúde oral é sinônimo de um corpo saudável. E vice-versa. Vamos ver alguns detalhes a seguir que comprovam esta correlação.

 

Exemplos de Doenças Orais que podem influenciar a Saúde do Corpo

Ir ao dentista é muito mais importante do que apenas checar como está a saúde bucal. Ele poderá perceber sinais de diversas outras doenças e problemas de saúde com origens ‘longe’ da boca, mas que se revelam ali. Não é incomum o dentista ser a primeira pessoa a perceber que “algo está errado” com a saúde do paciente. O dentista é capaz, também, de diagnosticar problemas graves na boca, que se não forem tratados adequadamente levam a uma piora considerável na saúde do corpo como um todo.

Uma simples ida ao dentista – com o prognóstico de encontrar apenas uma ou outra cárie a mais – pode resultar no conselho para buscar orientação médica sobre questões como diabetes, saúde cardiovascular ou osteoporose.

Osteoporose pode ser identificada no consultório do dentista?

Pode, sim! Esta doença é normalmente correlacionada a problemas nos ossos da coluna ou da bacia, porém é capaz de afetar, também, os ossos da face, que perdem progressivamente densidade e tornam-se mais fracos, porosos e quebradiços.

O dentista pode identificar, por meio de alguns pontos de atenção, os sintomas iniciais da doença, como: perda de massa óssea na mandíbula, dificuldade de recuperação após intervenções dentárias, dentes mais fracos ou soltos, gengiva retraída e problema na fixação de dentaduras. Exames de imagem – especialmente raios-x – são o método principal usado pelos dentistas para notar sinais de osteoporose.

Confira a seguir algumas doenças ou problemas de saúde orais que resultam em sintomas em outras regiões do organismo, com correlações já confirmadas por estudos.

 

Saúde cardíaca

A Ciência já sabe: existe uma robusta associação entre má saúde oral e piora considerável na saúde cardiovascular. Dados de pesquisa da USP divulgados pelo Instituto do Coração (InCor) apontam que 45% das doenças cardíacas podem ter origem na boca, incluindo a endocardite bacteriana, a aterosclerose, arritmia, o acidente vascular cerebral (AVC) e o infarto. Esse estudo, inclusive, correlaciona 36% das mortes por problemas cardíacos com a má saúde oral. Os resultados vêm da análise de 567 casos de pacientes que passaram pelo InCor entre 2009 e 2019 com endocardite infecciosa; destes, 206 casos foram originados por bactérias notoriamente presentes na boca, como a Streptococcus viridans.

O estudo do InCor é apenas um exemplo. A literatura médica e científica possui forte histórico de evidências da correlação entre saúde oral e saúde cardíaca. Pesquisas já identificaram, também, que a presença de periodontite (inflamação severa dos tecidos e ossos que dão suporte aos dentes), de gengivite ou de abcessos é um fator de risco para doença arterial coronariana e para AVC.

Em todos estes casos, a ligação é a seguinte: a falta de higiene oral adequada permite a proliferação descontrolada de bactérias. Elas podem facilmente cair na corrente sanguínea (não só elas, como também moléculas pró-inflamatórias geradas em uma boca não-saudável), contribuindo para a formação de placas ateroscleróticas nos vasos sanguíneos e elevando o risco de infarto do miocárdio e de AVC. Além da formação de placas, essas bactérias podem causar inflamações em vasos e tecidos de outros órgãos, iniciando processos que resultam em doenças e lesões.

 

Veja também:

Longevidade: como viver por mais tempo (e sem doenças crônicas)?

 

Saúde mental e Alzheimer

Alguns dos principais fatores de risco que prenunciam uma má saúde oral são o envelhecimento, a falta de dentição natural / uso de dentaduras e outras próteses, doenças sistêmicas e falta de medidas adequadas de higiene – todos estes fatores muito associados a demências. Conforme essas doenças progridem, o paciente perde a capacidade de cuidar bem de si mesmo, e a higiene oral é uma das primeiras a ser afetada. O que é muito ruim: a cada ano, novos estudos estão apontando que há uma grande relação entre a saúde da boca e a progressão de doenças cognitivas.

Por exemplo, estudos recentes (encontre todas as referências ao final deste texto!) identificaram uma associação entre má saúde oral e declínio cognitivo, assim como Alzheimer. No geral, pessoas com doenças orais (como periodontite) tinham probabilidades maiores de desenvolver problemas como demência.

A bactéria Porphyromonas gingivalis, muito presente em casos de periodontite, está sendo alvo de diversos trabalhos científicos. Isso porque ela foi encontrada no cérebro de pessoas com Alzheimer, e sabe-se que sua presença contribui para a formação de placas amiloides, uma das potenciais causas da doença. Apesar de uma correlação direta entre periodontite e Alzheimer ainda não ter sido estabelecida com absoluta certeza, na dúvida, manter a boca sempre limpa e saudável pode ser um fator diferencial de extrema importância no tratamento da saúde mental.

 

Veja também:

Alzheimer: o que acontece no cérebro das pessoas afetadas?

 

Sistema imune

A boca é uma das regiões do corpo em que há maior atividade do sistema imune. Afinal de contas, ela está sempre em contato com o mundo externo e é, também, uma porta de entrada para o interior do organismo. A boca precisa estar sempre bem protegida.

Por isso, a saliva possui diversos componentes antimicrobianos (como lisozima, lactoferrina e imunoglobulina A) que auxiliam, em um primeiro plano, a manter a saúde oral, mas acabam resultando na proteção de todo o organismo.

Se a boca está “doente”, infeccionada (ainda mais se isso ocorrer de forma crônica), dominada por microrganismos, a imunidade local pode ficar “sobrecarregada”. O corpo passa a destinar recursos do sistema imune para ampliar a defesa da boca comprometida, e com isso o restante do corpo ‘perde’ parte da proteção natural. Além disso, mediadores inflamatórios formados na boca doente, quando caem na corrente sanguínea, podem gerar um quadro de inflamação sistêmica, já correlacionado a danos cardiovasculares e a doenças autoimunes.

 

Gravidez

Outro momento importante – e que não é uma doença, mas uma condição especial na fisiologia do corpo – é a gestação. Existe uma conexão entre o aumento dos níveis plasmáticos de hormônios da gravidez e um declínio no estado de saúde periodontal. As inflamações gengivais na gestante podem predispô-la à ocorrência de parto prematuro, a ter recém-nascidos de baixo peso, pré-eclâmpsia e rompimento da bolsa amniótica sem contrações uterinas. O sangramento gengival espontâneo ou provocado durante a mastigação ou escovação pode chamar a atenção para o problema, e um dentista deve ser consultado.

 

Exemplos de Doenças com Sinais e Sintomas perceptíveis na Boca

Vamos, agora, conhecer alguns exemplos contrários aos apresentados acima – isto é, quando problemas que se iniciam em outras regiões do corpo geram ramificações que impactam a saúde oral.

 

Anemia

Um problema facilmente notado na boca é a anemia. A ingestão inadequada de ferro faz com que a mucosa oral perca a coloração característica, ganhando uma aparência mais pálida – isso já é um sinal de alerta para o dentista. Além disso, as papilas da língua podem ficar atrofiadas, gerando um fenômeno conhecido como ‘língua careca’. O paciente pode relatar, também, sensação de queimação na boca. Quando esse conjunto de sintomas é aparente, o dentista já sabe que muito possivelmente está diante de um caso de anemia, e orientará o paciente a buscar suporte médico e nutricional.

 

Diabetes

Uma doença que se revela comumente na boca é o diabetes, em especial o tipo 2. O diabetes mal controlado (ou ainda não diagnosticado) resulta em predisposição maior a infecções orais, a problemas na cicatrização e a doenças periodontais mais graves e difíceis de tratar – tudo isso decorrente das alterações nos vasos sanguíneos causadas pela hiperglicemia crônica. Se, ao longo de um tratamento dentário, o dentista perceber estas questões junto ao paciente, poderá orientá-lo a procurar ajuda médica a fim de realizar testes de glicemia e avaliar a possibilidade de diabetes.

 

ISTs

Muitas infecções sexualmente transmissíveis também possuem sintomas perceptíveis na boca, algumas delas bastante características e facilmente identificáveis pelo dentista. Talvez a mais ‘óbvia’ seja a herpes simples, que se manifesta com o surgimento de pequenas bolhas na região dos lábios e na cavidade oral. Outro exemplo característico é o da sífilis. Em sua fase secundária, pode causar as chamadas “placas mucosas” no interior da boca; quando o paciente se encontra com sífilis em estágio mais avançado, já comprometendo o corpo de maneira sistêmica, a doença se revela na boca como sulcos longitudinais na língua e alterações nos dentes. Outras infecções, como HPV, clamídia e até mesmo HIV, podem resultar em sinais identificáveis pelo dentista na região oral.

 

Veja também:

Herpes zóster: uma doença escondida na maioria de nós

 

Hábitos Simples e Eficientes para manter a Saúde Oral

Cuidar da saúde do corpo é um trabalho diário, que exige dedicação e cuidados constantes. A boca deve ser incluída nessas atividades, já que possui um impacto enorme em nosso bem-estar, como vimos acima. Seguindo algumas orientações simples, porém, é possível mantê-la limpa e saudável, sem grandes dificuldades:

 

  • Escove os dentes todos os dias, ao menos 03 vezes, por pelo menos 02 minutos, e especialmente antes de dormir. Caso durma de boca aberta, esta orientação é ainda mais importante, já que haverá menos saliva na boca e, com isso, bactérias terão grande facilidade de se multiplicar enquanto você dorme. Não se esqueça de escovar também a língua.
  • Utilize enxaguante bucal, segundo orientação de seu dentista, assim como o fio dental, especialmente na higiene bucal antes de dormir.
  • Troque a escova dental a cada 03 meses, no máximo, ou se perceber que as cerdas perderam a forma antes desse período. Caso tenha tido alguma infecção oral ou de garganta, vale a pena também trocar a escova.
  • Evite fumar – a correlação entre o cigarro e má saúde bucal é bem conhecida (e perceptível a qualquer pessoa). Fumantes correm riscos maiores de ter doenças periodontais, cáries e lesões na boca, além de chances ampliadas de problemas mais graves, incluindo câncer oral.
  • Mantenha uma rotina de visitas ao dentista, ao menos uma vez por ano. É uma consulta simples e que só irá trazer benefícios: uma boca mais limpa, que resulta em um corpo mais saudável como um todo, e eventualmente uma orientação antecipada de que é necessário checar melhor a saúde geral, no caso de algum sintoma ‘diferente’ ser percebido.

HVC - Perfis de Médicos - Dra. Laura D’Ottaviano

 

Para mais informações

Acesse os estudos abaixo para saber mais sobre a correlação entre saúde oral e…

 

Saúde cardiovascular
  • https://jornal.usp.br/podcast/momento-odontologia-11-infeccoes-bucais-podem-causar-outros-problemas-de-saude/
  • Tonetti MS, Van Dyke T, 2013. M.S., Van Dyke, T.E. and Workshop, working group 1 of the joint E. (2013) ‘Periodontitis and atherosclerotic cardiovascular disease: consensus report of the Joint EFP/AAP Workshop on Periodontitis and Systemic Diseases’, Journal of Clinical Periodontology, 40(s14), pp. S24-S29. Available at: https://doi.org/10.1111/jcpe.12089.
  • Sanz M, Marco Del Castillo A, Jepsen S, Gonzalez-Juanatey JR, D’Aiuto F, Bouchard P, Chapple I, Dietrich T, Gotsman I, Graziani F, Herrera D, Loos B, Madianos P, Michel JB, Perel P, Pieske B, Shapira L, Shechter M, Tonetti M, Vlachopoulos C, Wimmer G. Periodontitis and cardiovascular diseases: Consensus report. J Clin Periodontol. 2020 Mar;47(3):268-288. doi: 10.1111/jcpe.13189. Epub 2020 Feb 3. PMID: 32011025; PMCID: PMC7027895.

 

Declínio cognitivo e Alzheimer
  • Jungbauer, Stahl, Zhu et al. 2022. Periodontal microorganisms and Alzheimer disease – A causative relationship? Periodontology 2000Volume 89, Issue 1 p. 59-82 https://doi 10.1111/prd.12429
  • Nascimento PC, Castro MML, Magno MB, Almeida APCPSC, Fagundes NCF, Maia LC, Lima RR. Association Between Periodontitis and Cognitive Impairment in Adults: A Systematic Review. Front Neurol. 2019 Apr 24;10:323. doi: 10.3389/fneur.2019.00323. PMID: 31105630; PMCID: PMC6492457.
  • Guo H, Chang S, Pi X, Hua F, Jiang H, Liu C, Du M. The Effect of Periodontitis on Dementia and Cognitive Impairment: A Meta-Analysis. Int J Environ Res Public Health. 2021 Jun 25;18(13):6823. doi: 10.3390/ijerph18136823. PMID: 34202071; PMCID: PMC8297088.

 

Fumar
  • Dr. Abdul Aleem, Dr. Samra Bokhari, Dr. Sana Adeeba Islam, Dr. Nabeel Khan, Dr. Munnawar ul Haque, Dr. Shayan Zufishan, & Dr. Muhammad Khalil Khan. (2024). INVESTIGATE THE RELATIONSHIP BETWEEN SMOKING AND ORAL HEALTH IN ADULT PATIENTS. Journal of Population Therapeutics and Clinical Pharmacology, 31(9), 1123-1131. https://doi.org/10.53555/15cz9w27

 

Gengivite e Gravidez
  • Wu M, Chen SW, Jiang SY. Relationship between gingival inflammation and pregnancy. Mediators Inflamm. 2015;2015:623427. doi: 10.1155/2015/623427. Epub 2015 Mar 22. PMID: 25873767; PMCID: PMC4385665.
  • Tsikouras P, Oikonomou E, Nikolettos K, Andreou S, Kyriakou D, Damaskos C, Garmpis N, Monastiridou V, Nalmpanti T, Bothou A, Iatrakis G, Nikolettos N. The Impact of Periodontal Disease on Preterm Birth and Preeclampsia. J Pers Med. 2024 Mar 26;14(4):345. doi: 10.3390/jpm14040345. PMID: 38672972; PMCID: PMC11051368.
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