A “doença dos famosos”: saiba o que é a doença de Lyme (e por que ela afeta tantas celebridades) - Blog - Hospital Vera Cruz

05/11/2025

A “doença dos famosos”: saiba o que é a doença de Lyme (e por que ela afeta tantas celebridades)

Justin Bieber, Justin Timberlake e Avril Lavigne são alguns dos nomes diagnosticados com Lyme e que revelaram sofrer com os sintomas da doença. Conheça-a.

Hospital Vera Cruz - Blog - Doenca de Lyme - capa (1)

Em julho de 2025, ao finalizar uma grande turnê global, o cantor Justin Timberlake compartilhou em suas redes sociais uma notícia inusitada: havia sido diagnosticado com uma doença que é transmitida pela mordida de carrapatos.

Ao longo da turnê, essa doença provocou intensas dores, profunda fadiga e sensação de extrema fraqueza. Críticos haviam apontado que o cantor fez diversas apresentações de ‘baixa performance’ – segundo Justin, o motivo foi justamente essa doença.

“Entre outras coisas, tenho lutado contra alguns problemas de saúde e fui diagnosticado com a doença de Lyme — não digo isso para que vocês se sintam mal por mim — mas para esclarecer o que tenho enfrentado nos bastidores”, escreveu Justin. “Se você já teve essa doença ou conhece alguém que teve, então sabe: conviver com ela pode ser implacavelmente debilitante, tanto mental quanto fisicamente.”

 

Luta dos famosos

Timberlake não é o único cantor chamado Justin que contraiu a doença de Lyme. O Bieber também. Dentre famosos que já relataram terem sido diagnosticados estão as cantoras Avril Lavigne e Shania Twain, o ex-presidente dos EUA George W. Bush, os atores Ben Stiller e Alec Baldwin e a modelo Bella Hadid.

No início de 2020, o cantor Justin Bieber revelou que lutava havia vários anos contra a doença de Lyme, que o deixara com sensação constante de fadiga e com a saúde mental abalada. Em 2015, Avril Lavigne contou que ficou de cama durante 05 meses por causa da doença, contraída após uma mordida de carrapato no ano anterior, e que levou muito tempo até o diagnóstico correto ser alcançado. Em 2023, a modelo Bella Hadid chocou fãs em todo o mundo ao compartilhar fotos no hospital, visivelmente debilitada, em tratamento contra sintomas de Lyme – segundo Bella, o diagnóstico veio em 2012, mas a doença a afetava havia pelo menos 15 anos.

 

O grande problema com a doença de Lyme é que os sintomas podem ser bastante ‘genéricos’, similares a um grande número de outras doenças, assim como podem aparecer meses ou até mesmo anos após a mordida do carrapato.

Testes para detectar a doença nem sempre estão disponíveis ou funcionam corretamente, o que pode atrasar o diagnóstico. Apesar de ser tratável, não existe uma cura definitiva para Lyme, porém quanto mais tempo ela passar sem tratamento, piores podem ser os sintomas.

E esses sintomas podem ser extremamente debilitantes, durando anos, como os relatos dos famosos indicam.

Vamos conhecer em detalhes o que é essa doença, o que ela causa no corpo e como se proteger.

APELIDO: um “apelido” pelo qual a doença de Lyme é conhecido é “a grande imitadora”. Isso porque os sintomas, em seus estágios iniciais, podem ser similares a uma longa lista de outros problemas de saúde, incluindo artrite, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica e esclerose múltipla, o que dificulta o diagnóstico.

 

O que você precisa saber sobre a Doença de Lyme

 

  • A doença de Lyme é causada por bactérias (a mais comum é a Borrelia burgdorferi), transmitidas pela mordida de carrapatos contaminados.
  • Na maior parte dos casos de pessoas que tiveram contato com carrapatos contaminados, o próprio sistema imune é capaz de combater a infecção, e a pessoa não apresenta quaisquer sintomas de Lyme.
  • Para quem contrai a doença, o principal sinal inicial é uma mancha circular avermelhada, com a região central mais clara, similar a um ‘alvo’.
  • Se não for tratada, ao longo de meses e anos a doença pode causar complicações graves, incluindo problemas no sistema nervoso (como dores intensas em todo o corpo, fadiga e dificuldades de memória) e inflamação nas articulações e no músculo cardíaco. Parte das pessoas infectadas convive com esses sintomas durante anos.
  • O corpo não ‘ganha resistência’ contra Lyme, e reinfecções são comuns.
  • A doença de Lyme é relativamente comum nos EUA, Canadá, na Europa e partes da Ásia. No Brasil, há doenças similares (mas não exatamente Lyme), também transmitidas por bactérias via a mordida de carrapatos.
  • A melhor maneira de se proteger é evitar o contato com os carrapatos e removê-los do corpo em até 48h após a mordida.

 

Lyme: quais são os sintomas e como eles evoluem

A doença de Lyme pode evoluir em três etapas, progressivamente mais danosas ao corpo.

O primeiro sinal, bastante característico, é uma mancha circular que surge ao redor de onde o carrapato mordeu. Esse sinal não aparece imediatamente – ele pode demorar de uma semana até alguns meses para surgir (normalmente, de 01 a 04 semanas pós-mordida). A pele fica vermelha, em uma mancha circular que aumenta de tamanho com o tempo. Essa mancha usualmente não coça, mas pode ficar um pouco elevada e com textura diferente da pele ao redor. É comum a região central da mancha ser mais branquinha, lembrando um ‘alvo’.

Quando esta mancha aparece, usualmente outros sintomas também são percebidos, dentre eles febre, dores de cabeça, dores musculares, dores nas articulações, cansaço e falta de energia.

Esse sinal de ‘alvo’ é característico o suficiente para facilitar o diagnóstico da doença. Porém, como ele aparece semanas após a mordida do carrapato, nem sempre o paciente ou a equipe de saúde conecta uma coisa à outra. Além do mais, o sinal pode aparecer, sumir em alguns dias, e depois voltar dentro de algumas semanas – dificilmente alguém se lembra, nesses casos, da mordida original do carrapato.

Caso a doença não seja devidamente combatida pelo corpo ou tratada via medicamentos nessa fase 1, ela pode evoluir para sintomas bem mais severos.

De 03 a 10 semanas após a mordida, os sintomas já evoluem para a presença de manchas em todo o corpo, fraqueza muscular em um dos lados da face, inchaço na região dos olhos, dores nos olhos ou dificuldades de visão, falta de movimento no pescoço, dores que se iniciam nas costas e se espalham pelas pernas, dores ou falta de sensibilidade nas mãos e nos pés e problemas cardíacos que resultam em arritmia. Este é o “estágio 2” da doença. Como se pode perceber, há um ‘espalhamento’ de sintomas por todo o corpo, causando sérias consequências físicas e mentais.

O terceiro estágio da doença ocorre até um ano após a mordida do carrapato, e envolve sintomas relacionados às articulações (especialmente nos joelhos), com fortes dores, inchaço e inflamação. É comum a pessoa afetada ter dificuldades graves de movimento, às vezes sentindo-se incapaz de se locomover durante várias semanas.

 

Existe doença de Lyme no Brasil? Mais ou menos…

A maior parte das celebridades que mencionamos acima é de estrangeiros, que moram em países como Estados Unidos e Canadá. Isso porque a doença de Lyme é mais comum justamente nestas regiões.

No Brasil, a “doença de Lyme” é um pouco diferente, transmitida por outras espécies de carrapatos. As bactérias causadoras também são diferentes daquelas do hemisfério norte. Por isso, por aqui, a doença é conhecida como “Doença de Lyme símile brasileira” ou “síndrome de Baggio-Yoshinari“, tendo sido diagnosticada pela primeira vez em 1992.

 

Por que a doença de Lyme é perigosa?

Acredita-se que, na maioria dos casos, pessoas que foram mordidas por carrapatos que carregam a bactéria causadora da doença de Lyme conseguirão se curar ‘por conta própria’, mesmo sem a ajuda de medicamentos. Obviamente, caso sejam tratadas, o processo é mais rápido e eficiente. Ainda assim, é importante destacar que um sistema imune funcional é capaz de lidar bem com a infecção.

Todavia, isso nem sempre ocorre. A doença de Lyme causa preocupação porque, para algumas pessoas, o processo de cura pode ser bastante longo, e envolver complicações desagradáveis, que duram anos e apresentam recorrência. 

Para uma parcela significativa dos pacientes (de 5 a 15%, segundo estimativas), os sintomas nunca melhoram ‘100%’ (especialmente a artrite) e podem voltar após meses e anos da cura, incluindo problemas de memória, cansaço constante e dores pelo corpo.

Não se sabe por que motivo uma parcela de quem é afetado pela doença acaba tendo estes sintomas prolongados. Eles podem ser resultados de tratamentos incompletos, ou de novas infecções pela bactéria causadora da doença. Talvez tenham sido picados novamente por carrapatos. Talvez o sistema imune fique ‘ativo’ de maneira errônea e por tempo demais, e acabe atacando tecidos saudáveis do corpo, gerando danos de longa duração.

Há diversos relatos de sintomas prolongados (inclusive dentre os famosos citados aqui), durando meses após a infecção inicial, incluindo dores no corpo, sensação constante de cansaço, formigamento nos membros, problemas de memória, dificuldade de se concentrar, dificuldade de falar (todos estes estão relacionados a alterações no sistema nervoso) e inflamações nas articulações que se iniciam na época do diagnóstico de Lyme, mas que não melhoram.

Estudos mostraram que, nesses casos de ‘Lyme prolongada’, usualmente não há presença da bactéria borrelia no organismo, então eles não são uma consequência direta de uma reinfecção. Ainda se estuda o que pode causar danos de tão longo escopo ao corpo humano após a infecção original.

 

Quem foi Lyme?

A doença de Lyme recebe este nome não por causa da pessoa que a descobriu (como é comum em diversas outras doenças), mas sim da cidade em que ela foi identificada: Lyme, no estado de Connecticut, nos Estados Unidos, em 1975. Trata-se de uma doença ‘recente’, portanto. Naquele ano, diversas crianças foram diagnosticadas com artrite reumatoide na cidade, o que é incomum nessa faixa etária. Esse fato curioso levou pesquisadores a identificar as mordidas de carrapato como fator em comum entre os casos.

 

Como é o tratamento para a doença de Lyme?

Como vimos acima, Lyme é uma doença causada por bactérias, então a medida número um para tratá-la é por antibióticos. Usualmente, o tratamento inicial dura de 02 a 03 semanas, a depender dos sintomas e do estágio da infecção. Casos mais sérios podem demandar cursos de antibióticos de 04 a 08 semanas.

Nos casos em que há recorrência dos sintomas, ou quando eles surgem meses ou anos após a mordida do carrapato, o tratamento é sintomático e não requer o uso de antibióticos, já que o paciente não apresenta infecção bacteriana.

 

Por que os carrapatos preferem os famosos

Por que tanta gente famosa têm a doença de Lyme, relativamente rara no restante da população? Há duas ‘teorias’: maior acesso a tratamentos médicos de alta qualidade, favorecendo o diagnóstico de uma doença notoriamente difícil de ser identificada, e por viverem, usualmente, em regiões bastante arborizadas, cercadas de campos, em locais nos quais carrapatos que carregam a bactéria que causa a doença são mais comuns.

 

Prevenção: atenção aos carrapatos

Sendo ou não famoso, é fundamental estar de olho em carrapatos quando passar tempo ao ar livre, em regiões verdes, com a pele exposta. Isso vale para qualquer lugar do mundo: a mordida do carrapato pode desencadear processos inflamatórios e transmitir diversas doenças, como a febre maculosa aqui no Brasil. Por isso, algumas dicas valiosas são:

 

Veja também

Febre maculosa: o que a torna tão perigosa? O que ela causa no corpo? E desde quando é conhecida?

 

  • Evitar expor a pele se for ficar em locais com gramíneas, especialmente se houver presença de animais na região.
  • Carrapatos podem ser encontrados em qualquer lugar do corpo (eles ‘andam’ rapidamente pela pele), mas costumam ser identificados nos membros inferiores, de alcance mais fácil para eles. Caminhar em locais verdes com a barra da calça dentro das meias ou de botas é uma boa maneira de evitar que eles tenham acesso às pernas e aos pés.
  • Se passar muito tempo ao ar livre, cheque detalhadamente a pele na hora do banho para encontrar carrapatos. Removê-los dentro de algumas horas pós-mordida é o suficiente para se proteger: estudos indicam que o carrapato precisa ficar ao menos 36 horas preso à pele para a bactéria que causa Lyme invadir com sucesso o corpo humano. Todavia, mesmo a remoção do carrapato 48h após a mordida já reduz significativamente os riscos de contaminação.
  • Outra dica é ficar atento aos pets. Eles também podem ser mordidos por carrapatos e levar os pequenos aracnídeos para dentro de casa. Além disso, tanto cães quanto gatos podem ficar doentes por Lyme, assim como os humanos. Nos pets, os sintomas incluem perda de apetite, febre e falta de energia. O tratamento é feito via antibióticos.

 

Nos últimos anos, com a popularização das redes sociais e das ‘confissões’ de famosos com relação à saúde, o número de relatos da doença de Lyme aumentou consideravelmente, atingindo algumas das maiores celebridades globais, como Justin Bieber (e, agora, também o Timberlake). Uma doença que, antes, era marginalmente conhecida, agora é reconhecida em todo o mundo.

Apesar de ser característica do hemisfério norte, as dicas de proteção contra Lyme valem, também, para quem mora aqui no Brasil e adora passar tempo ao ar livre. Apesar da porcentagem de carrapatos que carregam doenças ser baixa, ainda assim todo o cuidado é pouco caso perceba um deles mordiscando a sua pele. Esta é uma valiosa lição, da qual famosos e não famosos estão cada vez mais cientes.

 

HVC - Equipe - Leonardo Ruffing

Informações adicionais e referências:
  • Yoshinari, N. H., Mantovani, E., Bonoldi, V. L. N., Marangoni, R. G., & Gauditano, G.. (2010). Doença de lyme-símile brasileira ou síndrome baggioyoshinari: zoonose exótica e emergente transmitida por carrapatos. Revista Da Associação Médica Brasileira, 56(3), 363–369. https://doi.org/10.1590/S0104-42302010000300025
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