Novos colírios prometem melhorar os sintomas de ‘vista cansada’ e proporcionar uma visão de perto ‘perfeita’. Será que eles funcionam mesmo?
Um dos sinais mais inescapáveis de que “a idade chegou” é quando precisamos trazer um objeto mais para perto do rosto a fim de enxergar as letrinhas… É inescapável: a partir dos 65 anos, a maioria das pessoas encontrará dificuldades em enxergar de perto.
Usualmente, a solução para esse problema é bastante simples: os óculos. Mas e se a pessoa não gostar de óculos? Será que não há opções mais modernas e ‘tecnológicas’ do que eles?
Recentemente, o ‘burburinho’ online é sobre colírios que prometem melhorar, quase ‘milagrosamente’, a visão de perto, sendo substitutos práticos e menos incômodos do que os óculos.
O que há de verdade – e de marketing – por trás dessas histórias? É o que vamos discutir hoje.
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A PRESBIOPIA É UMA CONSEQUÊNCIA NATURAL DO ENVELHECIMENTO
O processo – completamente natural – da ‘piora’ da visão com a idade tem um nome: presbiopia.
É importante notar que a presbiopia não é uma doença, mas sim a consequência natural da perda de elasticidade e flexibilidade do cristalino, a lente que fica na parte frontal dos olhos, atrás da íris. Essa lente é capaz de se ‘flexionar’, mudando de curvatura, para que objetos entrem em foco. Com o passar dos anos, assim como ocorre com outras funções motoras do corpo, essa flexibilidade fica comprometida.
Além disso, o chamado músculo ciliar, que auxilia na contração do cristalino, também perde flexibilidade. O resultado é uma dificuldade progressiva em “mudar de foco”, especialmente para objetos mais próximos, que exigem uma maior contração desse músculo.
A presbiopia é ruim? Para muitas pessoas, trata-se mais de um incômodo do que um problema. Todavia, fato é que não conseguir enxergar objetos próximos pode trazer dificuldades no dia a dia e tornar a qualidade de vida um pouquinho pior – e, em alguns casos, causar dores de cabeça e até cansaço visual.
Novas (e velhas) formas de corrigir a ‘vista cansada’
O método tradicional de corrigir a presbiopia é o uso de óculos: simples, seguro e eficiente. É possível o uso de lentes de contato como método corretivo também, mas as pessoas costumam preferir os óculos por sua enorme praticidade.
Adicionalmente, há opções cirúrgicas – tanto cirurgias que utilizam laser para remodelar a córnea e compensar a perda de flexibilidade da lente quanto aquelas que substituem a lente por uma nova, muito adotadas quando o paciente também tem catarata, por exemplo.
E quanto às novidades? Este ano, a US Food and Drug Administration (FDA) – um tipo de “ANVISA” dos EUA – aprovou a venda de dois colírios inovadores, que prometem melhorar o foco de perto. Um deles é baseado em uma molécula chamada de aceclidina, e o outro na pilocarpina. Na internet, ambos foram anunciados como quase “milagrosos” na “cura da vista cansada”. Vamos entender como eles funcionam – e se representam, realmente, um “futuro sem óculos”, como tem sido divulgado.
Não é a primeira vez que “colírios que substituem os óculos” são anunciados ou comercializados. Já há opções disponíveis no mercado que prometem resultados similares. Vamos focar, hoje, nos dois novos colírios aprovados pela FDA.
Pilocarpina
‘VISÃO PERFEITA’ UMA HORA APÓS A APLICAÇÃO
Os dados mais interessantes sobre os novos ‘colírios para presbiopia’ vêm de um estudo realizado na Argentina, com mais de 760 pessoas (média de idade de 55 anos). Elas foram divididas em 03 grupos, e cada um deles recebeu uma concentração diferente de um colírio baseado na pilocarpina.
Em todos os casos, houve uma melhora considerável na qualidade da visão de perto.
Segundo os pesquisadores que conduziram este estudo, após 01h da administração do colírio, a maioria dos participantes foi capaz de enxergar linhas adicionais daquele famoso “cartão de letras” do oftalmologista. Em média, foram 03 linhas a mais, uma melhora considerável.
Todos os 03 grupos mostraram aprimoramento na visão. No grupo que recebeu a menor concentração da molécula (1%), 99% dos participantes atingiram ‘visão perfeita’ de perto após 1h.
Os resultados variaram de acordo com o grau prévio de presbiopia de cada pessoa. Alguns voluntários somente perceberam benefícios quando a concentração do colírio passou para 3%. Esse é um indício de que, no futuro, possa haver tratamentos de acordo com o grau de problema de cada paciente.
Seria esta a solução, portanto, para a presbiopia? Não necessariamente…
Como a pilocarpina funciona
A pilocarpina é uma molécula conhecida dos oftalmologistas há mais de 100 anos (foi muito utilizada para tratar glaucoma, por exemplo). Ela interage com componentes do nosso sistema nervoso. Nos olhos, induz a contração da pupila e do músculo ciliar. Esses dois efeitos, combinados, aumentam a profundidade de foco e facilitam a visão de perto, e isso explica os bons resultados relatados acima.
Todavia, esses benefícios vêm com efeitos colaterais. A pilocarpina pode causar:
- vermelhidão nos olhos,
- lacrimejamento,
- visão embaçada,
- visão noturna prejudicada,
- sensibilidade à luz,
- dificuldade em mudar o foco entre objetos.
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Algumas pessoas relataram ver ‘flashes’ de luz, ou as famosas ‘minhoquinhas’ flutuando (moscas volantes) no campo de visão. Em alguns casos, pode haver rotura e até descolamento de retina. Por isso, esse colírio é contraindicado para certos tipos de olhos, como os de pessoas com alta miopia ou alguma predisposição anatômica na retina. É importante lembrar da necessidade de acompanhamento oftalmológico.
O novo colírio testado no estudo foi combinado com diclofenaco, um anti-inflamatório que ajuda a reduzir parte desses efeitos negativos.
No estudo, efeitos colaterais pouco severos foram relatados em 32% dos voluntários – um número nada baixo -, e se manifestaram como irritação nos olhos e dores de cabeça.
Note-se, também, que o efeito do colírio é temporário, exigindo que o tratamento se mantenha continuamente. Na pesquisa, utilizou-se o colírio diariamente, de 02 a 03 vezes por dia.
Em resumo: o colírio é um medicamento, com efeitos tanto positivos quanto potencialmente negativos, e precisará ser administrado de acordo com orientações médicas e a saúde de cada paciente. Será importante alinhar expectativas com as realidades do que esses medicamentos serão capazes de fazer.
Outros colírios para presbiopia, também baseados em pilocarpina, estão em estágio de teste clínico no momento.
Aceclidina
UMA ALTERNATIVA POTENCIALMENTE MAIS SEGURA – PORÉM BEM CARA
Outro colírio aprovado pela FDA em meados desse ano, e já sendo comercializado fora do Brasil, é baseado em uma molécula diferente, a aceclidina. Estudos clínicos robustos demonstraram que ele é capaz de melhorar significativamente a visão de perto, sem comprometer a visão de longe, de forma segura e duradoura. Após a aplicação do colírio, ele começa a agir em meia hora, com efeitos que se estendem por até 10 horas.
O efeito da aceclidina é o de promover a contração seletiva da pupila, que fica mais ‘estreita’ e, com isso, aumenta a profundidade de foco. O resultado é a facilitação do foco para a visão de perto.
Diferentemente da pilocarpina, a molécula age nos músculos da íris, o que teoricamente reduz os riscos de descolamento da retina. Além disso, seu efeito (10h) é mais duradouro – os colírios baseados em pilocarpina costumam funcionar bem por um período de 06 a 09 horas após a aplicação.
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Foram realizados testes clínicos envolvendo mais de 460 voluntários. 07 a cada 10 deles conseguiram enxergar 3 linhas adicionais do “cartão de letras” após 3h da aplicação do colírio. 04 a cada 10 mantiveram essa acuidade visual 10h após a aplicação.
O uso do novo colírio foi acompanhado ao longo de seis meses em um grupo de mais de 200 pessoas. Os efeitos colaterais mais relatados foram irritação nos olhos (20% dos voluntários), visão levemente turva (para 16% das pessoas) e dores de cabeça (13%). O perfil de segurança foi considerado favorável, com efeitos colaterais mínimos e limitados.
Talvez o maior impedimento para o uso deste colírio seja o preço sugerido. Nos EUA, estima-se que o custo mensal do tratamento fique em 79 dólares – cerca de R$420, em conversão direta (e não considerando impostos).
Quando a presbiopia não parece ruim
Para pessoas com miopia, ou seja, que têm dificuldades de observar objetos que estão mais longe, o início da presbiopia pode significar até mesmo uma melhora (ilusória) na visão, já que há uma certa ‘compensação’ entre as condições. Mas o efeito é temporário.
Já para quem tem hipermetropia (dificuldade de enxergar de perto), os efeitos da presbiopia ficam aparentes mais cedo do que no restante da população, surgindo antes dos 40 anos.
O fim dos óculos?
OS NOVOS COLÍRIOS REPRESENTAM ESTRATÉGIAS ADICIONAIS PARA MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA
No futuro próximo, colírios poderão substituir os óculos para quem está com presbiopia? Provavelmente não. Óculos são seguros e baratos, sem efeitos colaterais. Os colírios precisam ser usados diariamente (o que torna o custo elevado), têm duração provisória e podem causar efeitos preocupantes, exigindo monitoramento médico constante.
Ainda assim, é interessante notar avanços nesta área e o surgimento de novas opções para quem não pode – ou não quer – usar óculos, ou para quem uma cirurgia corretiva está fora de questão.
Novidades e avanços médicos, tecnológicos e clínicos surgem a todo momento. Na área da saúde, é extremamente comum que sejam anunciados como ‘milagrosos’. Apesar de esses novos colírios serem medicamentos assim como os demais, com lados bons e outros nem tanto, eles são um lembrete do quanto a Medicina evolui a cada ano, fornecendo novas alternativas para melhorar a saúde e a qualidade de vida de todos.
Para saber mais:
- Novo estudo sobre colírio baseado em pilocarpina: acesse aqui
- Detalhes da aprovação do colírio baseado em aceclidina: acesse aqui



